segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Pensar em desistir / Thinking about quitting / Pensar en la renuncia

Fim de ano e começo de ano novo são sempre assim. Muitos desejos, muitos planos, porém pouca reflexão sobre o que ficou para trás. Uma geração que aprendeu a valorizar o instante vivido tem muita dificuldade em estabelecer metas para o futuro exatamente por que tem dificuldade de olhar para seu passado de forma crítica. Isso é fazer história, a história de sua própria vida.
Nesse exercício de olhar criticamente para as marcas do que ficou, percebo que muitas vezes já pensei em desistir. E fiz isso de fato. A minha história é feita de muitas desistências. Muitos dos meus desejos ficaram no esquecimento, muitos planos tiveram que ser cancelados, muitas metas foram refeitas para dar lugar ao que se vive na realidade. E não tenho vergonha de ter pensado em desistir por tantas vezes. A desistência, em certos casos, não é sinônimo de fracasso, mas de amadurecimento.
O problema é que a gente olha para o futuro como um lugar para onde estamos indo, em que nossas escolhas, motivadas por sonhos e desejos, vão pavimentar o caminho até lá. Essa é uma ideia cujo sentido se esvazia diante das contingências da vida, das exigências do próprio caminhar, da necessidade de mudança que se faz como uma constante.
Olhar para o futuro a partir dos nossos desejos é um forte apelo para a angústia. Só dá para ter um olhar para o futuro a partir da esperança. E quando a gente fala de esperança no futuro, só dá para ter sentido quando ela está vinculada à fé. Quando se olha para o futuro apenas a partir dos nossos desejos, isso gera frustração. É o futuro visto como um fim em si mesmo. Quando se olha para o futuro a partir da esperança que brota da fé, isso muda nossas perspectivas. Isso é assim porque a vida de fé é uma imersão na história, ampliando horizontes, mobilizando a vida toda como abertura rumo ao novo, ao desconhecido, um convite a experimentar sempre um novo início.
Por que, então, alimentamos tantos desejos? Já reparou como são os desejos para um ano novo feliz? “Muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender”. Tem gente que deseja fazer um novo curso, mudar de vida, acertar na mega-sena da virada, encontrar um novo amor, emagrecer. E a gente nota que desejar essas coisas de sempre envolve um processo mais complexo do que se imagina.
Os epicuristas afirmavam que só se pode desejar aquilo que já se tem. Platão dizia que o desejo é sempre uma questão de carência. Para Aristóteles, corajoso é aquele que vence seus desejos, pois a maior virtude e vencer a si mesmo. Na verdade, os desejos têm a ver com uma representação do que se considera como meio de satisfação, de realização, de alívio das tensões de suprimento de uma carência.
A palavra “desejo” tem origem em desiderare, que significa deixar de olhar os astros. É um despojar-se, uma perda que impulsiona uma tomada de decisão. Como já não é possível guiar-se pelos astros, toma-se a decisão de guiar-se por si mesmo. O desejo, então, comporta em si mesmo uma ambiguidade. É uma potência de decidir quando se reconhece carente.
Para Santo Agostinho, desejo é transgressão, é autorrealização, é querer a si mesmo, deixando Deus do lado de fora. Entretanto, para Espinosa, desejo é conatus, força de existir, movimento que nasce das relações entre seres que sofrem afecções. Ter desejos é sinal de humanidade. Ele esconde uma vitalidade que aspira o mistério, que só se encontra pela fé. Pior do que ter desejos é não ter desejos. Como diria Nietzsche, “o homem prefere querer o nada a não querer”.
Quero arriscar um desejo para o ano novo. Ele não é propriamente meu, mas que o torno parte da minha consciência. Ele está na Bíblia. É o desejo que alimentemos a esperança de um futuro de alegria e paz. Se você preferir a Bíblia, então leia: Que o Deus da esperança os encha de toda alegria e paz, por sua confiança nele, para que vocês transbordem de esperança, pelo poder do Espírito Santo.” Romanos 15.13.

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