domingo, 20 de março de 2016

Dimensão política da fé / Political dimension of faith / La dimensión política de la fe

Assim como me enviaste ao mundo, eu os enviei ao mundo. João 17.18
A Bíblia aponta para o fato de que a vida humana é transitória, uma passagem de um realidade limitada para uma outra que é do campo da promessa divina, onde reside a nossa esperança. Os heróis da fé são aqueles que viveram essa experiência de transição. Eles estavam em busca de uma pátria perfeita. Se tivessem olhado para trás e para as circunstâncias vividas, teriam desistido e retornado. Mas, “em vez disso, esperavam eles uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial. [...]” (Hebreus 11.16).
Meus antigos pastores ensinavam que o cristão é “um cidadão de duas pátrias”. Uma, terrena, na qual vivemos de forma limitada, em meio a lutas e sofrimento; a outra distante, no além, celeste, onde desfrutaremos as promessas divinas. Uma presente e outra futura. Alguns podem até encontrar nessa explicação para a negação e até a fuga do mundo. Ao contrário, a noção de uma pátria terrena e outra futura traz em si o chamado a uma ruptura com as circunstâncias que nos prende a um estado de conformação com o mundo.
Essa forma de compreensão dá lugar à ideia de que a pátria futura é onde se encontram todos os nossos desejos e aspirações, assim como comporta a ideia de que a pátria terrena é lugar de construção, onde treinamos aqui o que sonhamos ter plenamente lá. É a nossa utopia e é para lá que caminhamos.
Isso quer dizer que, se almejamos a justiça, já temos aqui a oportunidade de exercitá-la. Se almejamos paz, já podemos promovê-la aqui. Se almejamos a verdade, já a buscamos aqui. Se desejamos o amor, já podemos praticá-lo aqui. Trata-se, portanto, de uma relação dialética em que já podemos experimentar aqui tudo o que ainda não alcançamos de forma plena visto que se apresentam a nós como aspiração e como promessa.
O céu não é um lugar de fuga, mas é onde depositamos nossa esperança de realização. O cuidado com a cidade terrena é a antecipação dos valores, ainda que provisoriamente, que acreditamos encontrar no céu plenamente. No céu está a promessa, no presente está a realização histórica de forma concreta.
Santo Agostinho, em A Cidade de Deus, afirma que “dois amores erigiram duas cidades, Babilônia e Jerusalém: aquela é o amor de si até ao desprezo de Deus; esta, o amor de Deus até ao desprezo de si”. Ao empregar um nome bíblico a essas cidades, isso remete ao fato de que Babilônia significa “lugar de confusão” e Jerusalém, “a visão da paz”. A relação entre essas duas cidades se confundem, visto que na primeira reside um sentimento egoísta, mas a segunda chama a uma abertura para Deus e o outro.
Os gregos antigos tinham uma compreensão interessante sobre a política. Eles acreditavam que era na política onde poderiam construir um caminho para a felicidade. Para tanto, toda pessoa deveria se ocupar de três coisas: o cuidado de si, o cuidado da casa e o cuidado da cidade. A política é a arte de cuidar da cidade como realização humana – a palavra “polis” em grego significa cidade. Sem esse cuidado, todos os outros estariam comprometidos.
Jesus se preocupou em orientar a ação de seus discípulos dentro de uma perspectiva histórica e, por essa razão, política, no sentido de se buscar uma vida que assume a sua relação com o mundo. Ele disse: “Sejam misericordiosos”, “Busquem a justiça” e “Promovam a paz”. São esses exercícios, como práticas de interdições no mundo, que podem fazer com que a mensagem do evangelho promova a transformação e traga a libertação de todas as formas de opressão que a vida terrena oferece.
Trazendo essa proposta para os dias atuais, surge a pergunta: quais seriam as práticas no âmbito da política que poderiam ser adequadas a uma conduta cristã no mundo? Ouso apontar algumas:
a) Faça a sua parte. Coloque em prática tudo aquilo que você entende, à luz dos ensinamentos bíblicos, como correto, justo e bom.
b) Seja produtivo. Trabalhe, produza riqueza e bens não no sentido de ter para si, mas que permita o bem comum.
c) Estude. Procure informar-se, atualizar-se e compreender os modos como se dão os regimes de poder em vigor.
d) Seja solidário. Lembre-se que estamos todos no mesmo barco. Se ele afundar, naufragaremos todos.
e) Esteja ao lado dos mais vulneráveis. Os poderosos não precisam de apoio.
Não importa a ideologia política, o evangelho é um chamado a que todos tomemos parte das ações que podem transformar as condições de vida que estão sob ameaça no mundo. Estar comprometido com a melhoria da vida de todos é o que há de mais cristão.

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