quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Inscrições para o Percurso de Formação em Psicanálise e Supervisão



Venha tomar parte do Percurso de Formação em Psicanálise e da Supervisão Solidária para psicólogos e psicanalistas.

O Percurso de Formação em Psicanálise é um projeto que envolve o trabalho como psicanalista clínico tendo em vista promover a terapia psicanalítica não só como cuidado com a saúde mental, mas também para a ampliação do conhecimento da teoria e da prática em Psicanálise.

A proposta do Percurso de Formação em Psicanálise visa à formação em Psicanálise para todas as pessoas interessadas em aprofundar seu conhecimento na teoria e prática psicanalítica. A base da atividade do Percurso segue o tripé psicanalítico – que consiste em teoria, supervisão e análise – tendo em vista a formação de uma consciência mais aprofundada a respeito da técnica freudiana, bem como a preparação de pessoas interessadas em fazer um percurso para a sua própria habilitação para o exercício como psicanalista.

Nosso Percurso de Formação inclui uma proposta de Supervisão Solidária, aberta a profissionais que estejam atuando ou que desejam começar a atuar. A ideia é de realização de supervisão em regime de solidariedade e parceria para psicoterapeutas e psicólogos que estejam atuando clinicamente.

Para saber mais sobre o Percurso de Formação em Psicanálise, clique em:

https://ireniochaves.blogspot.com/p/formacao-em-psicanalise.html

Para saber mais sobre a Supervisão Solidária, clique em:

https://ireniochaves.blogspot.com/p/supervisao-em-psicanalise.html

terça-feira, 16 de junho de 2026

Salvação, conversão e significado / Salvation, conversion and meaning / Salvación, conversión y sentido

 

“E todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo!” (Atos 2.21). 

Uma expressão comum entre os evangélicos brasileiros é “aceitar Jesus”. Ela tanto serve para descrever a experiência de conversão pessoal quanto para convidar pessoas a adotarem uma nova posição religiosa, acolhendo a fé evangélica. Ou seja, não só é uma expressão ligada à iniciação na fé, mas também um argumento proselitista.

Essa expressão se estabeleceu a partir da estratégia discursiva dos pregadores chamados evangelistas, desde os grandes oradores dos meios de comunicação, que enchiam auditórios, até mesmo os mais humildes nas comunidades periféricas e interioranas. Tornou-se um convite universal para que as pessoas experimentassem uma mudança de atitude em relação à fé.

As mensagens de arrependimento e de perdão divino, os chamados sermões evangelísticos, eram sempre encerradas com o apelo para aceitar Jesus. O gesto para isso era simples. Bastava manifestar com o levantar de uma das mãos durante o apelo, geralmente acompanhado de hinos e orações. Com isso, a pessoa demonstrava o seu desejo de experimentar uma nova forma de vida que a libertasse de tudo aquilo que tirava a sua dignidade.

O apelo para aceitar Jesus como Senhor e Salvador foi a forma mais emblemática usada pela igreja evangélica para restaurar a esperança pessoas que viviam de um modo degradante. Era direcionado a quem vivia oprimido pelas dívidas, pelas condições sociais, pelos vícios, pela violência, pelo medo e até pela falta de perspectiva para o futuro.

Quem aceitava Jesus passava a se sentir empoderado para experimentar uma vida mais autônoma, livre da opressão da vida cotidiana. Havia até canções que enalteciam esse gesto: “desde o dia em que aceitei Jesus, a minha vida se transformou; agora sou feliz, agora vivo bem; Jesus salvou a mim e salva a ti também”.

A partir dessa escolha, o novo convertido se tornava uma pessoa melhor, um melhor pai, uma melhor mãe, um melhor filho ou filha, um melhor trabalhador ou trabalhadora, um melhor patrão ou patroa e até mesmo um melhor cidadão ou cidadã. De fato, as pessoas melhoravam de vida até mesmo do ponto de vista socioeconômico, adotando novos hábitos de consumo e novas perspectivas de vida.

O apelo para aceitar Jesus em uma manifestação pública é resultado do movimento evangelicalista norte-americano sobre a igreja evangélica brasileira. A prática surgiu no século XIX através de lideranças avivalistas. Um deles foi Charles Finney, um dos pregadores do chamado “segundo grande avivamento” dos Estados Unidos. E foi trazido para o Brasil pelos missionários que trouxeram o protestantismo de missão a partir do século XIX.

Teologicamente, o apelo em si implica a ideia de uma conversão imediata, em que a pessoa reconhece a sua condição pecadora, arrepende-se e entrega-se à graça salvadora de Jesus Cristo. Pressupõe a ideia da justificação pela graça, que é gratuita e imediata. Aceitar Jesus implica também reconhecê-lo como Senhor e envolve submeter a vida de forma voluntária a seus ensinos e princípios.

O momento de aceitação ao apelo tem o sentido do acolhimento ao convite amoroso de Jesus, a dizer sim para o projeto redentor divino consumado no nascimento, vida e morte de Jesus na cruz. Essa atitude está diretamente relacionada à ação do Espírito Santo que é quem convence a pessoa do pecado e o encoraja ao “novo nascimento” e a se tornar uma “nova criatura”.

Essa prática ainda é muito forte e presente nas igrejas evangélicas históricas e tradicionais. Porém, as novas influências teológicas vindas dos Estados Unidos apontam para outras formas de proselitismo. Teologias como as da prosperidade e do domínio defendem a adoção de atitudes mais secularizadas, de conformação à mentalidade dominante de consumo e de adesão a um estilo de vida ligado ao ter e à aparência.

A consequência dessa mudança de abordagem trouxe o esvaziamento da proposta do seguimento de Jesus, da mudança de atitude, do aprendizado a respeito dos ensinos de Jesus de Nazaré e da vivência dos valores genuinamente cristãos no mundo, como a prática do amor, da justiça e da paz.

Um dos fatores que contribuíram para o crescimento dos evangélicos no Brasil tem a ver com os sentidos desse apelo. Pessoas que “aceitam Jesus” se dispõem a mudar de vida, a transformar a sua mentalidade a respeito da vida, a aprender aquilo que Jesus ensinou como valor para a vida e a experimentar uma vida livre de amarras religiosas, vivendo em uma nova comunidade na qual podem partilhar experiências de vida.

(Assista às mensagens da série Aceitar Jesus: O que isso significa? em meu canal no Youtube. Acesse pelo link: https://www.youtube.com/playlist?list=PL4NVfVIy5Bi6YBxpjO6ioVYz-hRpb3e9Z)

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Espiritualidade dos discípulos de Jesus: Disciplina e exercícios espirituais [Novo E-book] / The Spirituality of Jesus' Disciples: Discipline and Spiritual Exercises / La espiritualidad de los discípulos de Jesús: disciplina y ejercicios espirituales

A igreja cristã da atualidade precisa deixar de lado a sua institucionalidade para se dedicar mais à espiritualidade. Jesus nunca teve em mente uma instituição hierárquica, fundada em um sistema de crenças, voltada para a manutenção de monumentos suntuosos. Ele chamou um grupo de pessoas rudes e humildes e as transformou em seus discípulos.

Quando se fala de espiritualidade, fala-se sobre exercícios e práticas de vida interior, de disciplina espiritual, de exame de si, de esvaziamento de si, de busca de uma experiência mais profunda de Deus. E foi isso que Jesus procurou transmitir ao seu corpo de discípulos.

Quem quiser ter uma experiência significativa de Deus é convidado a fazer uso dos exercícios e das práticas espirituais que vêm de alguma tradição religiosa. Nem mesmo os discípulos de Jesus escaparam a isso. Eles precisaram refletir sobre alguns exercícios e práticas que Jesus mesmo observa em sua vida.

Os discípulos de Jesus não foram obrigados a fazer mais do que Jesus fez ou pediu. Eles apenas precisavam fazer o percurso que o Mestre lhes apontou. E o fizeram com muita seriedade e profundidade, levando esses exercícios e práticas para as vivências das primeiras comunidades de fé.

Os exercícios e as práticas de espiritualidade não são novos e nem se restringem ao ambiente cristão. Outro aspecto importante é que a espiritualidade é um exercício subjetivo e de liberdade que exige de cada pessoa renúncias e dedicação.

Jesus fez uso dos exercícios e das práticas que já eram conhecidas em sua época, especialmente no judaísmo de seu tempo, e as ressignificou a partir da sua mensagem, as colocou em prática em sua própria vida e as ensinou aos seus discípulos. Ele se tornou o maior exemplo de alguém que fez da disciplina espiritual seu modo de vida.

Os primeiros discípulos de Jesus levaram esses exercícios e práticas para a vida da igreja primitiva, influenciando os novos seguidores, multiplicando, atualizando e dando novo direcionamento ao que o Mestre de espiritualidade ensinou.

Em meu novo livro, minha intenção é explorar quais foram os principais exercícios e práticas de espiritualidade que Jesus orientou seus discípulos realizar.

Como seguidores de Jesus em nosso tempo, é importante revisitar as práticas dos primeiros discípulos não só para conhecê-las, mas também para repensar as nossas.

Por que oramos, jejuamos, lemos a Bíblia, comungamos, confessamos, fazemos penitência ou nos consagramos do jeito que fazemos? Como o cristianismo primitivo desenvolveu suas práticas mais comuns? Quais eram as práticas mais relevantes para Jesus? Essas perguntas precisam de respostas que nos apontem diretrizes para a nossa espiritualidade hoje.

(Extraído da apresentação do livro Espiritualidade dos discípulos de Jesus: Disciplina e exercícios espirituais).

Para saber mais, leia o livro Espiritualidade dos discípulos de Jesus: Disciplina e exercícios espirituais, disponível no formato E-book Kindle da Amazon.

Acesse:

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sexta-feira, 20 de março de 2026

Revolução do amor: por uma espiritualidade dos afetos (novo e-book) / Revolution of love: towards a spirituality of affections / Revolución del amor: hacia una espiritualidad de los afectos

Em um tempo marcado por tanta guerra, ódio, injustiça, maldade e indiferença, falar do amor parece um contrassenso. Mas esse tema tornou-se urgente, não para impor um dever de amar, mas para nos lembrar que somos capazes de amar.

Neste livro, vamos explorar a temática do amor pelos caminhos da filosofia, da psicanálise, da teologia, das ciências bíblicas e da espiritualidade para falar do mal-estar que atravessa a humanidade em nosso tempo. Dizemos que o amor está em falta, mas o que deveríamos dizer é que o amor foi substituído por outras atitudes que têm destruído a vida no planeta. O amor está sufocado, escondido, disfarçado no mundo.

De um modo geral, ouvimos também falar que temos a obrigação de amar, que o mundo está mal porque as pessoas não se amam e, por isso, procuramos os culpados pela falta de amor no mundo. Acabamos construindo uma mentalidade que condiciona o amor a uma lei punitiva, uma força repressora, como algo impossível de acontecer de forma livre e espontânea.

O amor se torna, assim, uma abstração, algo distante de nossa realidade. “Falamos de amor, mas vivemos com ódio: odiamos em nome do amor. O ódio é o nosso protesto contra a ‘impossibilidade do amor’”, disse Thomas Merton no prólogo do livro de Ernesto Cardenal, Vida em amor.[1]

Uma imagem que ficou eternizada nos protestos contra a guerra retrata um jovem colocando flores nos fuzis de soldados. O fato aconteceu em 22 de outubro de 1967 e a foto foi tirada pelo fotojornalista Bernie Boston durante um protesto pacifista em Washington, contra a guerra no Vietnã. A foto recebeu o nome de “Flower power” e concorreu ao Prêmio Pulitzer daquele ano. Ela lembra que o amor é a única força que pode vencer a maldade.

O amor é um dos temas mais difíceis para ser abordado em um estudo ou reflexão. A dificuldade de escrever sobre o amor envolve tanto a abrangência do tema quanto as nossas próprias limitações e carências de amar e ser amado. Por isso que reunir as reflexões que fazem parte deste livro se tornou um grande desafio para mim. Primeiro porque o amor precisa ser aperfeiçoado em mim, e segundo porque o amor está em falta no mundo.

Não dá para se referir ao amor por palavras. Há que se viver, praticar, compartilhar. Exatamente pelo fato de que o amor não é um sentimento. Ele é uma atitude.

Há uma crise no mundo, que é da escassez do amor, que tem afetado todas as esferas da vida. Ela é maior do que as crises, econômica, política, social, ambiental e relacional. Ela também está por trás delas e provoca todas as demais crises pelas quais a humanidade passa.

A falta de amor está disfarçada de muitas formas. Ela pode se confundir com o medo de estar só, com a busca de realização pessoal, com o ideal de perfeição e até com o narcisismo. A falta de amor é o sintoma mais sério da perdição humana.

O ponto de virada para sair dessa crise aponta para uma mudança radical de mentalidade, uma conversão de si para deixar de ser alguém fechado em si mesmo a fim de se tornar aberto ao mundo e ao outro.

Para superar a falta de amor, somente uma grande revolução para nos apontar caminhos de construção dessa atitude que tanto faz falta. A revolução do amor tem a ver com uma transformação radical e profunda das estruturas humanas para que se possa estabelecer uma nova perspectiva de vida, centrada no amor.


[1] Cardenal, Ernesto. Vida em amor. Salamanca: Sigueme, 1987. p. 9.

Imagem criada por IA.

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domingo, 25 de janeiro de 2026

Religião como expressão humana: uma reflexão necessária para este tempo / Religion as a human expression: a necessary reflection for our time / La religión como expresión humana: una reflexión necesaria para nuestro tiempo

Um dos fatos mais surpreendentes a respeito da religião é que ela permanece ativa mesmo num mundo secularizado, cético e cientificista como o que nos vivemos. Alguém chegou a dizer que a religião iria desaparecer, mas ela tem se reafirmado em toda sua diversidade e pluralidade.

O meu livro O que é religião? é resultado de uma investigação que venho fazendo há muitos anos. Foi publicado pela primeira vez em 2005 e agora encontra-se disponível como e-book, revisado e atualizado com informações que venho abordando em artigos e textos em periódicos, anotações de aulas, apostilas de cursos ministrados e em meu blog de filosofia, espiritualidade e psicanálise.

O livro físico está esgotado. Daí a necessidade de disponibilizar esse conteúdo de forma digital. Desde que foi lançado, serviu de leitura recomendada em muitas faculdades de teologia, ciências da religião e áreas afins. Com a nova edição em e-book, creio que será ainda mais interessante para quem procura aprofundar seu conhecimento a respeito do assunto.

Falar de religião é sempre transitar em um terreno nebuloso, cheio complexidades e de subjetividades. Trata-se de um sistema complexo que envolve crenças, enigmas, esperanças, temores, mistérios e até aquilo que não se consegue exprimir em palavras, coisas que todos nós carregamos conosco. Lidar com o sagrado, com o sobrenatural, com o inefável ou com a finitude causa sempre um certo desconforto, pois nos confronta com nossa realidade existencial e nos interpela a assumirmos posições e a darmos direção à vida. Embora muitos nem sejam religiosos, na acepção mais realista do termo, não há quem não se detenha a refletir sobre seus temas diante das situações limites da vida.

Espero que a leitura deste pequeno livro ajude aos religiosos a serem mais críticos e sinceros em sua devoção. E espero que os não religiosos reflitam sobre a importância dessa experiência em sua prática cotidiana.

Para ler o e-book, acesse: https://www.amazon.com.br/dp/B0GHT2ZCHK

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Ascese, espiritualidade e discipulado / Asceticism, spirituality, and discipleship / Ascetismo, espiritualidad y discipulado

 

“Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus” (Filipenses 2.5). 

O grupo de discípulos de Jesus foi uma verdadeira escola de espiritualidade. Eles aprenderam com o maior mestre de espiritualidade que a humanidade conheceu sobre práticas que visavam o conhecimento de si e o cuidado de si e do outro de uma forma peculiar. Eles compreenderam sobre como é viver guiados pelo Espírito e a respeito das práticas de espiritualidade no seguimento de Jesus.

Ao contrário das influências do judaísmo, das religiões de mistério e das práticas dos movimentos filosóficos de seu tempo, Jesus desenvolveu uma espiritualidade mais equilibrada em relação aos rigores de alguns grupos. Jesus não se orientou pelos costumes do ascetismo de seu tempo. Ao contrário, ele inovou com a preocupação com uma vida de interioridade e de desprendimento para o cuidado com o próximo.

Havia muitos grupos religiosos que desenvolveram práticas monásticas e eremitas, com ênfase rigorosa em orações, abstenções e períodos de isolamento. Entre os movimentos ascéticos do judaísmo no tempo de Jesus, havia o grupo dos essênios. Eles eram uma seita formada por judeus que existiu desde o século II AEC. Viviam em comunidade e buscavam a pureza, a partilha dos bens e o silêncio. Eram dedicados ao estudo das Escrituras, desenvolviam rituais de purificação e praticavam a imersão como rito de iniciação. Essa seita ficou mais conhecida depois que foram descobertos os Manuscritos do Mar Morto, em uma gruta na localidade de Qumran.

Havia também a prática dos nazireus, que eram os judeus que faziam votos voluntários de consagração de vida a Deus, através de práticas de abstenções e de não cortar o cabelo por um período. Eles procuravam seguir rigorosamente as orientações do livro de Números 6.1-21. Não se tratava de uma seita ou grupo, mas de práticas que podiam ser desenvolvidas por qualquer judeu, homem ou mulher, que quisesse ter uma experiência de Deus ou mesmo de demonstrar gratidão.

Havia anda um movimento conhecido como os terapeutas, formado por judeus da diáspora, especialmente na região de Alexandria, no Egito. Entre as práticas ascéticas, estavam: o celibato, a renúncia aos bens materiais, a prática do jejum, a oração e o isolamento social, para se dedicaram a uma vida santa e se preservarem para o fim dos tempos. Esse grupo foi descrito pelo filósofo judeu Filo de Alexandria no século I da Era Comum.

No Novo Testamento, encontramos relatos sobre as práticas religiosas dos fariseus. Eles formavam um grupo político influente dos judeus, conhecidos por sua devoção rigorosa à Torah, à interpretação literalista das Escrituras e à tradição oral. A escola rabínica foi responsável por moldar a prática religiosa a partir das sinagogas e da interpretação das Escrituras.

Além dos movimentos de espiritualidade judaicos, a região onde Jesus viveu e formou o seu grupo de discípulos era influenciada pela cultura greco-romana e pelas tradições dos povos vizinhos, como os egípcios, os edomitas, os sírios, os fenícios e os samaritanos. A influência das religiões de mistério e das escolas filosóficas como a dos estoicos também se faziam presentes. Cada cultura tinha sua identidade própria e desenvolvia suas crenças e práticas religiosas. Dessa forma, a espiritualidade naquela região era pluralista e marcada pela diversidade.

A espiritualidade que Jesus ensinou aos seus discípulos tinha três características predominantes: a integração à vida social, o exercício do domínio próprio e a ênfase na prática do amor fraternal. Jesus confrontou a prática ritual e o formalismo, propondo uma nova relação com o sagrado, baseada na proposta de vida na perspectiva do Reino de Deus.

A espiritualidade dos discípulos de Jesus se consolidou quando do início da atuação como igreja. Toda ascese dos primeiros cristãos era voltada para a vida em comum, para o cuidado uns dos outros, para o compartilhamento e para o cumprimento da missão. Podemos chamá-la de espiritualidade do caminho pelo fato de que se realiza à medida que se a partir da própria caminhada como cristãos no mundo.

É a espiritualidade como discipulado, como aprendizado constante, como busca permanente para se tornar mais identificado com o exemplo deixado por Jesus de Nazaré. O objetivo era ser como o Mestre. Isso não dependia de estruturas religiosas, dogmas ou mesmo hierarquias. Havia a compreensão de que a vida era guiada pelo Espírito Santo e que o objetivo principal de uma vida cheia da graça era se tornar um instrumento vivo para o bem comum.

As regras de vida monástica e aquilo que conhecemos como ascese cristã só vieram posteriormente e se firmaram no século II em diante. O início foi marcado pela espontaneidade, pelo desejo de consagrar a vida inteira aos propósitos divinos, ainda que fosse preciso colocar em risco a própria vida. Ela era, por assim dizer, uma espiritualidade plural, livre de qualquer tipo de normatizações e de rituais rigorosos.

Essa espiritualidade do caminho e do caminhar faz falta nos dias atuais. O nosso tempo é marcado por uma diversidade de experiências e de práticas de espiritualidade que carecem de uma reflexão sobre o significado daquilo que fazemos. Os discípulos de Jesus praticavam orações, jejuns, meditação, períodos de reclusão e de solitude, autocontrole e testemunho de vida, tudo voltado para a vida em comunhão e para o cumprimento da missão.

Rever o modo como os discípulos de Jesus desenvolveram sua espiritualidade contribui para que possamos repensar sobre as razões pelas quais oramos, consagramos a vida ou mesmo prestamos serviços religiosos. Em última instância, permite que possamos entender melhor o que faz da gente cristãos e cristãs autênticos num mundo tão diverso.

(Assista à série de reflexões Espiritualidade dos discípulos de Jesus na playlist do Youtube: https://www.youtube.com/playlist?list=PL4NVfVIy5Bi5UCfJp5ohxoBGKl8tgcPA_).

A série foi publicada em livro e está disponível no formato E-book Kindle ba Amazon. Adquira e leia: https://www.amazon.com.br/dp/B0GZPC4Y9D


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Conflito entre Venezuela e EUA: soberania e autodeterminação dos povos em risco / Conflict between Venezuela and the USA: sovereignty and self-determination of peoples at risk / Conflicto entre Venezuela y EEUU: soberanía y autodeterminación de los pueblos en riesgo

Na madrugada do dia 3 de janeiro de 2026, as forças militares dos EUA, que estavam posicionadas no mar do Caribe em prontidão de ataque há quase 5 meses, bombardearam a Venezuela, invadiram a capital venezuelana e sequestraram o seu presidente. A investida faz parte de uma escalada de hostilidades entre Caracas e Washington que se acentuaram após a posse de Donald Trump.

Independente do que se pense, ou se saiba, sobre as personalidades de Nicolas Maduro e Donald Trump e seus governos, estamos diante de crimes previstos em acordos internacionais. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, foram construídos acordos e instituições internacionais para salvaguardar o direito dos povos, mas que atualmente se mostram ineficazes.

As alegadas justificativas de envolvimento com o narcotráfico e o narcoterrorismo, apresentadas pelo governo americano, caíram por terra. O que ficou claro é que o objetivo era de fato a apropriação das maiores reservas de petróleo do planeta, conforme o próprio Trump declarou em entrevista à imprensa.

O atual governo dos EUA efetivou uma ameaça que pairava no ar desde a ascensão do chavismo ao poder na Venezuela, há mais de 20 anos. Naquela ocasião, as empresas americanas que atuavam na exploração do petróleo venezuelano foram afastadas em nome de uma mudança política para a defesa dos interesses dos projetos de cunho popular.

O que está em jogo nesse cenário? Fica evidente o poder de influência das grandes empresas produtoras de petróleo que regem os rumos da política internacional. Fica claro também que o interesse econômico de uma nação em desenvolvimento, seja na América Latina ou em qualquer parte do mundo, está sempre subordinado aos interesses corporativos das nações onde se encontram as sedes dessas empresas. O discurso de usar os ganhos com o petróleo e gás para diminuir a pobreza e a desigualdade social não são sequer cogitados. Além disso, a defesa dos valores internacionais que fizeram surgir a ONU há 80 anos atrás, que são os da soberania nacional e o da autodeterminação dos povos, fica fragilizada. Qualquer nação que não detenha a mesma capacidade bélica está ameaçada.

Não se trata mais de ameaça à democracia, mas da reação a um processo que está em curso, que é o da construção de um mundo multipolarizado, dominado pelas grandes potências econômicas e militares. O ataque à Venezuela é uma declaração de que não há nação imune às grandes potências mundiais.

O que isso pode acarretar? Em um primeiro momento, isso pode desencadear uma corrida armamentícia de todos os países que se sentirem desprotegidos. As nações em desenvolvimento precisarão se preparar militarmente para proteger suas riquezas naturais e sua soberania. Ao mesmo tempo, os blocos econômicos regionais precisarão avançar nos acordos de cooperação de defesa. Especialmente na América Latina, será necessário um grande esforço de cooperação para que a região não sirva de território de domínio de nenhum império.

O mundo precisa urgentemente virar a chave da dependência dos combustíveis fósseis. Hoje, essa é a maior causa da crise pela qual a humanidade atravessa. Foi após o emprego em massa dos combustíveis fósseis na indústria e no consumo mundial que aumentaram os conflitos de proporções mundiais bem como a degradação do meio ambiente, colocando em risco a vida no planeta.

Nesse conflito, não há lado bom, não há santos de parte a parte. É o jogo do poder a qualquer custo, tanto por parte de quem usurpa o posto de forma questionável, quanto de quem se utiliza do cargo para o exercício da tirania e da opressão.

É um tempo para que pessoas de bom senso parem para refletir sobre esse fenômeno histórico, tanto para compreender suas causas quanto para avaliar as suas consequências. É tempo também de buscar a paz. Já se disse que somente as nações que dominam armas de destruição em massa estão protegidas. Isso se resume a um grupo seleto de 9 nações no mundo.

Não são os países ou a economia que estão sob ameaça. Na verdade, é a humanidade que está em risco. Uma prova disso é que não se falou sobre o número de vítimas durante esse ataque, nem muito menos se falou do direito dos cidadãos aos ganhos advindos dos recursos naturais em seus territórios.

O que se vê é a perpetuação da lógica colonialista nos mesmos moldes da exploração que se deu após o descobrimento da América, baseada no poder do capital e na força militar. Trata-se de um retrocesso de mais de 200 anos desde os movimentos emancipatórios que fizeram surgir as nações do continente.

De minha parte, digo: quem for de oração, dobre os seus joelhos para interceder pela paz no mundo.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Natal, o amor encarnado / Christmas, love incarnate / Navidad, el amor encarnado

O Natal é a mais sublime história de amor já contada e vivida pela humanidade. O nascimento de Jesus traz consigo a mensagem de que o amor de Deus se tornou visível e real entre nós. Esse amor que moveu o coração de Maria e seus parentes, que levou José a acolher a sua prometida esposa grávida de outro, que mobilizou criaturas celestes e pessoas humildes a se juntarem em reconhecimento desse grandioso gesto de amor.

O evangelho de João não possui uma narrativa sobre o nascimento de Jesus, como o fazem Mateus e Lucas. Toda a mensagem sobre o início da vida de Jesus de Nazaré se concentra na encarnação de Deus em Cristo. Ela consiste o prólogo, que é a parte inicial do evangelho, dos versículos de 1 a 14. Nele, João se refere ao conceito de logos, muito presente na filosofia ocidental e que marcou muitos pensadores judeus que procuravam uma aproximação com o Ocidente.

Os primeiros filósofos gregos se debruçaram sobre esse termo, referindo-se a ele como uma ideia inicial, formadora de toda a nossa compreensão da realidade. Um deles foi Heráclito, que o entendia como um princípio universal, racional e divino que governa e sustenta o cosmos em unidade. Platão ampliou esse significado, relacionando-o à razão e ao conhecimento, como o fundamento das ideias verdadeiras.

A palavra grega corresponde ao substantivo do verbo legein, que significa “dizer”. O logos é aquilo que é dito, como um discurso, uma fala. O logos é mais do que Palavra, Verbo ou equivalente. O logos é aquilo que não sabemos o que é, mas temos apenas uma ideia. É a base do discurso, como aquilo que se diz de algo, como um saber que se desvela. Por isso que a tradução do vocábulo grego, em filosofia, é “ideia”. Quem a traduziu para “verbum” foi a edição em latim conhecida como Vulgata.

No prólogo de João, o logos remete à sabedoria divina, como um princípio orientador e organizador do universo que está em permanente mudança. Essa sabedoria foi revelada como Palavra de Deus e entregue aos homens. Muito provavelmente João se apropriou da noção ontológica do logos que Filo de Alexandria apresentou naquela mesma época. Filo entendeu o logos como um ser divino intermediário, que atua entre a criação e a transcendência divina, como um mediador da revelação divina. Por isso, João declara: “No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1.1 ARC).

O logos de João remete à sabedoria divina, como um princípio criador, orientador e organizador do universo que está em permanente mudança. Essa sabedoria foi revelada como Palavra de Deus e entregue aos homens. João afirma: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1.14 ARC).

João deixa claro que aquilo que era apenas uma ideia se tornou humano, o divino habitou entre nós, o sagrado se tornou carne, Deus virou gente como a gente. A palavra grega usada é sarcs, que quer dizer corpo formado pela complexa constituição de carne, sangue, ossos, órgãos, tecidos e sistemas vitais, como a natureza sensível do ser humano. O divino tornou-se corpo vivo e sensível.

Dessa forma, os gestos de amor divino puderam ser vistos de forma concreta nos gestos de Jesus. O amor se tornou encarnado. João diz que essa ideia encarnada de perfeito e pleno amor “habitou” entre nós. Ele usa a palavra grega skenoo para dizer que Jesus “fixou sua tenda” entre nós. E o fez cheio de graça e de verdade.

Mais adiante, João amplia o significado do amor encarnado ao dizer que ele é extensivo a toda e qualquer pessoa. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16 NAA)

O amor do Pai pela criação e o amor do Filho pelo seu Pai se uniram desde o início para trazer salvação para a humanidade perdida. Jesus é a expressão do amor divino pela humanidade, um amor apaixonado, capaz de renunciar a tudo para colocar a vida inteira a serviço de quem se ama.

Esse amor encarnado nos convoca a tomarmos parte dele, a encarnarmos esse amor na nossa própria vida. “Como o Pai me amou, assim eu os amei; permaneçam no meu amor” (João 15.9). O amor encarnado se realiza quando somos capazes de reconhecer no outro o rosto de Deus, quando somos impelidos a transformar em ações o cuidado para que o outro seja tratado como um ser humano digno e amado por Deus.

No amor encarnado, o sagrado e o humano se unem nas práticas cotidianas. Somos interpelados a cumprirmos a missão de Deus no mundo (a Missio Dei) a fim de torná-lo mais justo e solidário, em que todos e todas tenham acesso a uma vida mais digna.

O Natal nos remete à encarnação do amor na nossa própria vida, e esse amor encarnado corresponde à nossa própria humanização. Um Feliz Natal cheio de amor para toda humanidade.

sábado, 15 de novembro de 2025

O maior desafio do amor: Campanha 40 Dias de amor / The greatest challenge of love: 40 Days of Love / El mayor desafío del amor: 40 días de amor

“[...] Amem os seus inimigos, façam o bem aos que os odeiam”
(Lucas 6.27).
O maior desafio do amor é amar os inimigos, exatamente pelo fato de que o amor é a única força capaz de superar o ódio e pôr fim à violência. Mateus registra com muita clareza o que Jesus disse: Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem” (Mateus 5.43-44).
Martin Luther King, em um sermão que pregou sobre o tema “Amando seu inimigo”, apontou algumas formas de colocar em prática esse princípio. O primeiro passo é fazer uma análise de si mesmo. Precisamos admitir que alguém não goste do jeito que somos, ou que carregue um ressentimento sobre algo que fizemos no passado, ou que haja algum traço de nossa personalidade que desperte o ódio da pessoa por nós.
O segundo passo é fazer o esforço de encontrar no outro, mesmo que nos odeie ou que nos faça mal, algo de bom que exista nele. Ninguém é bom ou mal o tempo todo. Platão chegou a representar a alma humana como um cocheiro que guia uma carruagem com dois cavalos teimosos, cada um querendo seguir sua própria direção. Todos nós temos algo que está em desajuste, que precisa de ajuda para encontrar a harmonia, a prudência e  o bom senso necessários para orientar a tomada de decisões.
Martin Luther King Jr. lembra que Jesus disse para amar os inimigos, não para gostarmos dele. Por isso, propos uma nova maneira de lidar com aqueles que nos odeiam que é a resistência não violenta às forças da maldade. Isso significa se negar a odiar sob qualquer circunstância. Temos muito a ganhar simplesmente por não alimentar o ódio em nossos corações.
Pense com você mesmo: quais são os inimigos a quem devemos amar? Os que nos ofendem, os que são violentos, os que nos ameaçam, os que nos exploram, os que nos excluem. Se você consegue identificar quem é o seu inimigo, já temos um fator a menos para nos preocupar. O problema é que, na verdade, o nosso pior inimigo é aquele que se disfarça de amigo para nos prejudicar. Que Deus nos livre de maldade de gente boa.
O que fazer com o inimigo? Jesus disse para fazer o bem a ele, para abençoá-lo e para orar por ele. Jesus disse: “[...] Amem os seus inimigos, façam o bem aos que os odeiam,  abençoem os que os amaldiçoam, orem por aqueles que os maltratam” (Lucas 6.27-28).
E por que devemos tratar os nossos inimigos assim? Mateus registra que essa é a forma de ser dos filhos de Deus. Em hipótese alguma, o ódio cabe na vida de quem foi transformado por Jesus (Mateus 5.45). Já Lucas registra que há uma recompensa para quem escolhe amar, em vez de odiar (Lucas 6.35).

(Participe da Campanha 40 Dias de Amor: assista à série de mensagens “Vivendo em amor no mundo” no Youtube; faça a leitura diária e pratique os projetos de vida semanais que estão na descrição de cada vídeo; reúna familiares e amigos para lerem juntos e debaterem sobre esse texto).


quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Ele nos amou: Campanha 40 Dias de Amor / God loved us: 40 Days of Love / Dios nos amó: 40 días de amor

“[...] Farei que [...] reconheçam que eu amei você” (Apocalipse 3.9).
No livro do Apocalipse, encontramos quase que despercebidamente uma frase que o Espírito Santo diz a uma das igrejas, a de Filadélfia, sobre o amor. Deus quer fazer com que todos reconheçam o amor que Ele tem por nós. Você já parou para pensar sobre quais seriam as razões para Deus amar gente como a gente?
Por que Deus escolheu um povo tão instável como o israelita? Porque Ele amou. “O Senhor não se afeiçoou a vocês nem os escolheu por serem mais numerosos do que os outros povos, pois vocês eram o menor de todos os povos. Mas foi porque o Senhor os amou [...]” (Deuteronômio 7.7-8).
Por que Deus se importa tanto com pessoas que não fazem Sua vontade e que vivem distantes de Seu propósito? Porque Ele ama. “Visto que você é precioso e honrado à minha vista, e porque eu o amo [...]” (Isaías 43.4).
Amar é o modo de Ser de Deus. É o que define Deus. Tudo o que Ele é e tudo o que Ele faz é proveniente do Seu amor. Essa é a única razão pela qual Deus se importa com gente como a gente.
O que pode fazer com que a humanidade reconheça que Deus ama cada pessoa? Há três ideias que podem prover esse reconhecimento.
A primeira é que a Criação é um ato do amor divino. Somente um Ser amoroso seria capaz de criar um mundo com as condições ideais para a vida de sua maior criação, a humanidade. Quem ama cuida. A natureza criada é a maior demonstração do cuidado de Deus com a vida. Por isso que somos impelidos pelo amor: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1 João 4.19).
A segunda é que a redenção de nossa própria perdição é um ato do amor divino. Somente um Criador amoroso seria capaz de se importar com o sofrimento de quem escolheu se afastar de sua vontade. Quem ama se importa com o sofrimento do outro. A obra da redenção em Jesus Cristo é uma iniciativa unicamente do amor de Deus. O evangelho nos diz: “Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16).
E a terceira é que a liberdade de escolher é um ato do amor divino. Somente um Pai amoroso seria capaz de permitir que seus filhos tenham liberdade de escolha. Quem ama permite que o outro seja livre. Somos livres para escolher, mas somos responsáveis pelas consequências. E ainda assim Deus cuida de nós com Seu amor infinito. O amor de Deus nos torna livres de tudo aquilo que nos oprime e nos desumaniza: “Portanto, se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres” (João 8.36).
Nossa vida é um grande testemunho que Deus ama a toda a humanidade. À medida que permitimos que seu amor se concretize e tome forma em nossa vida, tornamo-nos exemplos vivos desse amor.
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domingo, 2 de novembro de 2025

O amor como projeto de vida: Campanha 40 Dias de Amor / Love as a life Project: 40 Days of Love / El amor como proyecto de vida: 40 días de amor

“Sigam o caminho do amor [...]” (1 Coríntios 14.1).

Nada é mais importante na vida do que os relacionamentos e ninguém entendeu melhor isso que Jesus. Você precisa descobrir como desenvolver atitudes que restaurem a saúde e a riqueza nos seus relacionamentos em família, com seu cônjuge, com seus amigos e em todas as relações de sua vida.
O que você faria para melhorar os relacionamentos mais importantes de sua vida?
O que você estaria disposto a dar de si mesmo para mudar de forma radical aquilo que é mais importante em suas relações pessoais?
Descubra de que maneira você pode construir atitudes que o ajudarão a cumprir os propósitos de Deus em seus relacionamentos.
O objetivo principal do ministério de Jesus aqui na Terra foi nos mostrar como é possível amar as pessoas neste mundo.
Como é possível amar mais a Deus?
Como é possível amar mais nossa família?
Como é possível amar mais nosso cônjuge?
Como é possível amar mais nosso vizinho?
Como é possível amar mais a nós mesmos?
Vamos poder descobrir juntos um amor que é paciente, que é amável, que perdoa, que não é egoísta e que fala sempre a verdade. O amor é a grande utopia cristã. Por isso, deve ser o alvo e o desafio de todo cristão.
Qual o alvo principal de sua vida? Sua resposta a essa pergunta vai revelar o valor que direciona a sua vida. Todo mundo é guiado por um valor. É o que inconscientemente serve de base para nossas escolhas e influenciam nossa tomada de decisões. Jesus ensinou que o amor deve ser o nosso valor dominante. De fato, Jesus disse certa vez que, de todos os mandamentos na Bíblia, apenas dois são mais importantes: amar a Deus com todo seu coração e amar o próximo como a si mesmo.
O amor, para o cristão, não é uma escolha ou um sentimento. O amor é um mandamento.
(Reflexão para pequenos grupos, durante a Campanha de 40 Dias de Amor)
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quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Condenação de Jair Bolsonaro: implicações e desdobramentos históricos / Jair Bolsonaro's conviction: implications and historical developments / La condena de Jair Bolsonaro: implicaciones y desarrollos históricos

O dia 11 de setembro de 2025 entra para a história como o dia de uma reparação histórica das muitas tramas golpistas que têm marcado a República brasileira com a condenação do ex-Presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão em regime fechado por tentar um golpe de Estado. Nossa história é atravessada por golpes de Estado desde o fim do império e por muitas tentativas desde e insurreições desde a independência. Porém, a suprema corte do país nunca tinha levado a juízo seus autores.

Desde 2021, o país foi tomado por uma sucessão de ações, discursos e manifestações que visavam a perpetuação no poder do grupo que governava o país. O Brasil foi vítima de atentados contra as instituições democráticas e de tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito, orquestrados por uma organização criminosa que fez uso do aparato do governo para disseminar discurso de ódio, fake news e apelos por intervenção militar.

A ideia dos acusados e agora condenados era colocar em suspeição o processo eleitoral e a lisura das urnas eletrônicas. Após a derrota na eleição de 2022, a trama golpista não aceitou os resultados das urnas e vários atos ilícitos foram praticados, como acampamentos na porta de quartéis, vandalismo na frente da sede da Polícia Federal em Brasília no dia da diplomação do vencedor da eleição, ameaça de atentado à bomba no aeroporto de Brasília e o ataque às sedes do Congresso, da Presidência e do STF que ficou conhecido como o atentado do 8/1. Houve inclusive o plano para o assassinato de três autoridades da República.

Dentre as acusações contra o núcleo golpista, encontram-se a tentativa de golpe de Estado, de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, de formação de organização criminosa, de dano qualificado contra o patrimônio da União e de deterioração de patrimônio tombado. Junto com Bolsonaro, que já havia sido considerado inelegível pelo TSE, encontram-se outros sete membros do seu governo, entre eles ex-ministros da Defesa, da Justiça, da Marinha, do Gabinete de Segurança Institucional, além de seu candidato à vice-presidência e seu ajudante de ordens.

Jair Bolsonaro tornou-se o primeiro ex-presidente do Brasil a ser condenado por liderar uma tentativa de golpe de Estado. Sua condenação põe o país diante de seu passado e de seu futuro. Quanto ao seu passado, fica evidenciado que, pela primeira vez, quem tenta golpe de Estado pode responder pelos seus atos. Generais e outros militares foram julgados e condenados de acordo com legislação vigente, fazendo valer o princípio de que ninguém está acima das leis. Quanto ao seu futuro, renasce a esperança de que o golpismo seja uma página definitivamente virada e que seja inibido daqui pra frente. Com isso, a democracia se consolida e se fortalece. Espera-se que o discurso de ódio e as práticas de disseminação de fake news diminuam e permitam um ambiente mais saudável para o diálogo e a contraposição de ideias. O falso discurso de que a anistia ou indultos podem pacificar o país finalmente cai por terra.

No ano em que se completam 40 anos da redemocratização, o Brasil afasta o fantasma da ditadura. Fica demonstrado que as instituições democráticas cumprem a sua função legal e que se busca a concretização do ideal de que todos são iguais perante a lei. Os fundamentos do devido processo legal, da garantia à ampla defesa e o direito ao contraditório demonstram que o Estado Democrático de Direito saem fortalecidos.

O STF transmite aos brasileiros a mensagem de que todos têm direito a um julgamento justo e imparcial. A Justiça, quando exercida de forma independente e imparcial, é o único caminho para a pacificação. Para isso, ela precisa ser livre de ameaças e coerções, sejam internas ou externas. A marca de um país soberano é a autonomia de seu sistema de Justiça.

(Imagem: https://commons.wikimedia.org/)

sábado, 23 de agosto de 2025

Exercícios de Ecoespiritualidade: Somos parte da Criação / Eco-spirituality Exercises: We are part of Creation / Ejercicios de eco-espiritualidad: Somos parte de la Creación

“Então os olhos dos que veem não estarão mais fechados, e os ouvidos dos que ouvem escutarão” (Isaías 32.3).

 No ano de 2024, aconteceu na cidade de Cali, Colômbia, a 16ª Conferência das Partes, também conhecida como COP 16. O foco era o de implementar um quadro global de diversidade conforme ficou definido pela Conferência de Biodiversidade das Nações Unidas em 2022 e adotado pela COP 15, composto por 23 metas e 4 objetivos. Porém, a principal lacuna que ainda precisa ser preenchida para proteger a diversidade é a alocação de recursos financeiros.

O tema da conferência foi “Paz com a Natureza” para enfatizar a ideia de que a conservação da biodiversidade requer um compromisso de toda a humanidade. Para isso, seria necessário mobilizar recursos financeiros para procurar reverter a perda da diversidade até o ano de 2030. Porem, não houve um consenso acerca de quanto seria necessário para promover as ações para conter a perda da diversidade biológica, principalmente entre os países mais desenvolvidos.

Entretanto, houve conquistas históricas. A COP 16 definiu acordos para a partilha das informações dos códigos genéticos visando promover o seu uso sustentável e garantir o acesso equitativo aos benefícios da biodiversidade. Outra conquista foi o reconhecimento da importância e a inclusão dos povos originários e das comunidades afrodescendentes no âmbito da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica. O objetivo foi o de garantir espaço direto de voz e de influência nas tomadas de decisão por possuírem conhecimentos e práticas que contribuem para a concretização dos objetivos do Quadro Global de Diversidade.

Mas é preciso fazer mais. Necessitamos de um diálogo para desenvolver juntos e juntas  formas de moldar o futuro do planeta. Papa Francisco, em sua encíclica Laudato Si, lançou esse desafio para que seja possível construir um novo ambiente de solidariedade universal em que todos os seres vivos, desde os mais vulneráveis, possam viver com dignidade.

Trata-se de uma mudança de mentalidade que atinge também a fé, que precisa abrir mão da crença de que o homem é o centro de tudo para desenvolver ações que envolvam práticas de espiritualidade com o cuidado de toda a Criação. A ecoespiritualidade emerge como um exercício de fé em busca da reconciliação do ser humano com a natureza, compreendendo a sacralidade da vida de todas as criaturas e a responsabilidade de proteger a dignidade da vida. Eco vem de oikos, que é casa em grego. A ecoespiritualidade é o exercício de cuidado com a casa comum em perspectivas ética, política, social, econômica e espiritual.

Necessitamos também de uma voz profética de arrependimento e de compromisso com a justiça e a paz com toda a Criação. Isso envolve uma Teologia da Criação que proponha um caminho de reconciliação uns com os outros e com o Criador a fim de promovermos justiça genuína para todos os seres vivos. Só assim a Criação encontrará paz.

Essa preocupação pode ser encontrada na Escritura, especificamente no livro do profeta Isaías. Ele disse: “Meu povo viverá em paz, tranquilo em seu lar; terá descanso e segurança” (Isaías 32.18 NVT). A promessa de paz e segurança é consequência do compromisso com a justiça. É uma mensagem que nos desafia a nos constituirmos como uma sociedade justa, baseada em princípios de equidade e respeito mútuo, onde todos e todas possam desfrutar a vida com tranquilidade.

O profeta inicia, no capítulo 32, a descrever a perspectiva messiânica do Reino de Deus. Um reino futuro, mas que já começava a despontar naquele tempo em Judá com promessa de justiça e paz para toda a Criação. Um reino de retidão que agirá com justiça, o que é um contraste à tirania, à corrupção e à injustiça dos regimes de poder com os quais Judá já havia convivido.

Um governo assim se transforma em um refúgio para os oprimidos. É como um vento suave em meio ao calor escaldante, como uma corrente de água em terra seca e como a sombra no deserto. Um verdadeiro oásis de esperança em meio ao deserto da incerteza, da exploração e da maldade. A mensagem profética é marcada por uma linguagem poética que destrói falsas narrativas e que aponta para a restauração da dignidade da vida em todos os aspectos.

O resultado da justiça é a transformação do cenário de desolação em que a sociedade vive. As pessoas em geral serão curadas da cegueira e da surdez que as impedem de lutar por direitos e dignidade. O povo terá sabedoria e entendimento para tomar decisões acertadas. Os tolos não terão mais tanta influência e os sem caráter não terão tanto poder, como acontece em nossos dias. Parece que Isaías se dirige a nós em tempo de fake news, pós-verdade, disseminação do ódio, negacionismos e extremismos nas redes sociais.

Nesse tempo messiânico, Isaías vê que o papel das mulheres é fundamental. Elas são tratadas como agentes de transformação com sua capacidade e sabedoria. O chamado é para que se levantem com urgência, porque a terra não mais produzirá os frutos para o sustento de suas famílias por causa da maldade dos homens. Suas vozes de lamento e de protesto devem ecoar por todas as partes, desde as casas até às cidades.

Isaías descreve o cenário da natureza devastada pela ganância e pela exploração da terra, resultado do afastamento de Deus e de seus propósitos para toda a Criação. A consequência se reflete nas relações sociais, na vida das cidades e nas estruturas de poder, que estão deterioradas pelo pecado humano. O afastamento de Deus tem afetado toda a Criação. Aquilo que foi criado para trazer segurança, paz e suprimento para todos estava em ruínas. Terras, biomas, rios e oceanos sofrem com a cultura da arrogância, da acumulação e da ganância.

O projeto da Criação divina foi fundado no senso de justiça e paz, mas a humanidade quebrou essa relação promovendo uma verdadeira guerra através da exploração desordenada dos recursos naturais, do consumo exagerado e do extermínio de espécies. A economia capitalista moderna estabeleceu práticas insustentáveis de exploração dos recursos naturais colocando em risco a vida de todo o planeta.

Nós, que somos coparticipantes da Criação, nos tornamos cúmplices e corresponsáveis pela crise provocada pela devastação. A maneira como consumimos, empreendemos e orientamos a economia voltada para o lucro esbarra com a dificuldade de colocar em prática princípios de sustentabilidade. O resultado é mais poluição, crises sanitárias, fenômenos ambientais cada vez mais devastadores, desmatamento ilegal para dar lugar a monoculturas, exploração de minerais que colocam em risco biomas inteiros e emissão de gases do efeito estufa.

A responsabilidade tanto é coletiva e estrutural, como também é individual. O apego ao luxo, o desperdício, o uso de veículos e equipamentos poluentes, a aplicação de produtos químicos e o descarte de resíduos são algumas dessas coisas que fazemos que contribuem para o quadro atual de desolação.

Quando olhamos ao nosso redor, vemos um cenário de conflitos e destruição. A palavra desolação resume bem o contexto da atual crise ambiental e climática. Em todas as partes do mundo podemos ver que a causa dessa desolação é o próprio ser humano que insiste em provocar danos à natureza. Ao mesmo tempo, os próprios seres humanos são também vítimas dessa desolação.

O mundo está em crise e a resposta passa por uma mudança de mentalidade. A mensagem profética de Isaías lança as bases dessa mudança necessária e urgente, que fala de justiça, paz e reconciliação com a Criação. Como apelou o Papa Francisco em sua encíclica Laudato Si: “Qual é o objetivo do nosso trabalho? Que necessidade tem a terra de nós? Deixar um planeta habitável às gerações futuras depende de nós” (2015, § 160).

A Teologia se vê impelida a mover-se pelo Espírito Santo, o sopro da vida, que é derramado sobre nós nesse momento, trazendo esperança de renovação para a terra e de restauração da harmonia da Criação. Nesse tempo, somos chamados como cristãos e cristãs a nos unir com alegria, justiça e paz a toda a Criação para vivermos o que fomos criados para ser: cooperadores uns dos outros, como embaixadores da justiça, da paz e da reconciliação.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Caminho do Itinerário do Amor: uma reflexão a partir do Castelo Interior / Path of the Itinerary of Love: a reflection from the Interior Castle / Camino del Itinerario del Amor: una reflexión desde el Castillo Interior

Um dos textos mais sublimes da espiritualidade cristã é, sem sombra de dúvidas, a obra “O castelo interior”, de Teresa de Ávila, santa e doutora da igreja que viveu na Espanha durante o século XVI. Trata-se de um clássico da literatura de espiritualidade e mística. Nesse livro, a fundadora do Convento das Carmelitas Descalças ofereceu, de forma simples, uma proposta de experiência de encontro com Deus e de busca de santidade.

Teresa de Ávila usa a metáfora de um castelo formado por muitas moradas para se referir à alma humana. Consideremos nossa alma como um castelo, feito de um só diamante ou de um cristal claríssimo, onde há muitos aposentos, à semelhança das muitas moradas que há no céu”, diz ela. Essa jornada em direção ao encontro com Deus é também conhecida como o “caminho do itinerário do amor”, um guia de experiência de espiritualidade que o campo da mística tem se debruçado em suas investigações e descobertas.

Nesse caminho místico, não estamos sozinhos. É o próprio Rei que nos guia e nos conduz, a cada morada, em direção ao grande salão real. Para percorrer essas moradas, é preciso primeiro tomar a decisão de entrar no castelo interior. Logo na primeira morada, a alma é despertada para a vida espiritual, convidada a reconhecer o seu valor e a sua necessidade de Deus. Embora ainda estejamos presos aos desejos e envolvidos com o pecado, não podemos esquecer que fomos criados como imagem e semelhança de Deus.

Ao chegar à segunda morada, a alma é encorajada à prática da oração e aos exercícios espirituais. O objetivo é perseverar na luta contra as distrações e a na busca por uma vida mais próxima da vontade divina. A terceira morada corresponde ao momento em que a alma desfruta do cuidado divino e começa a sentir a presença de Deus de forma mais intensa. Entretanto, ela ainda pode sofrer oscilações e dificuldades.

Na quarta morada, a alma experimenta um aprofundamento da experiência mística, com um desejo ardente de se entregar completamente a Deus. Ná quinta morada, a alma atinge um grau de união mais profundo com Deus, frequentemente descrito como um êxtase místico, onde a vontade da alma se torna mais alinhada com a vontade divina.

Na sexta morada, a alma experimenta uma união quase plena com Deus, com a prática constante da oração, das virtudes e da caridade. Enfim, a sétima morada corresponde à plenitude da experiência de Deus vivendo em perfeita harmonia com a vontade divina e desfrutando a verdadeira paz e alegria espiritual.

Há quatro lições que podemos extrair dessa obra de Teresa de Ávila. Os sete estágios de progresso espiritual descritos por Teresa implicam conhecer a alma humana e descobrir a vida interior. A primeira lição é o caminho da descoberta de si; a segunda tem a ver com nossa luta interior que confronta nossos desejos e a carência de Deus que todos possuímos; a terceira é a alternativa que o chamado divino nos oferece, de experimentar uma vida de intimidade com Deus; e, por fim, a lição de que uma vida de plenitude da presença de Deus é possível num mundo tão conturbado como o nosso.

Teresa de Ávila viveu numa época bastante contraditória. Era um tempo de mudanças em que o Ocidente abandonava a mentalidade medieval e se abria para a Modernidade. Essa transição foi dominada pela descoberta da racionalidade e pela defesa da dignidade humana. Além disso, a Espanha encontrava-se sob forte influência da inquisição, com o temor constante de aderir aos novos ventos que vinham do humanismo e das ciências nascentes e, sobretudo, dos ideais da Reforma Protestante.

Havia também o fato de ela ser mulher numa sociedade patriarcal. Embora tivesse sido estimulada a escrever sobre suas ideias e sua experiência, ela foi muitas vezes considerada como impulsiva e desajustada à sociedade. Aos 21 anos, abandonou a família para viver de forma radical a sua experiência de fé. Em vez de uma vida reclusa em um mosteiro, optou pela missão peregrina de formar diversos conventos pela Espanha.

A jornada de espiritualidade, quando vista à luz da tradição mística cristã e da Escritura, nos oferece uma compreensão mais aprofundada da vivência do amor ensinada por Jesus de Nazaré. A proposta de Teresa de Ávila está bem ajustada à experiência mística. De um modo geral, essa experiência envolve a prática da ascese, a meditação e o êxtase. Dito de outro modo, envolve a prática de purificação dos sentidos, o esforço para esvaziar a mente e a experiência de fortalecer o espírito. É um processo lento e gradual, com muitas idas e vindas, até que se alcance a união mística com Deus. Tudo isso para que possamos atravessar o deserto e refazer o caminho novamente.

A essência da experiência de Deus é o amor. Esse é o mistério divino que perpassa a relação de Deus com a Sua criação e nos interpela a experimentarmos sua realização de forma concreta em nossa vida. Ter um encontro com Deus é encontrar o amor em sua forma mais profunda.
(Assista à série de reflexões Moradas: Caminhos para a experiência de Deus >> no meu canal: https://www.youtube.com/playlist?list=PL4NVfVIy5Bi7DkhSi1oYXv2cJB2VF0sy4

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Deus cuida de mim: Você não está só / God takes care of me: You are not alone / Dios cuida de mí: Usted no está solo

 

 

“Lancem sobre ele toda a sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês” (1 Pedro 5.7).

A poesia da música “Deus cuida de mim”, de Kleber Lucas, é uma das mais impactantes letras do cenário evangélico brasileiro. A música foi lançada em 1999 e ganhou repercussão em todos os segmentos religiosos então. Esse foi o título do terceiro álbum do cantor e é a sua composição de maior sucesso. O álbum chegou a vender mais de 100 mil cópias no promeiro ano e recebeu o Globo de Ouro no ano 2000.

Grandes cantores da música gospel a regravaram, alcançando sucesso nas vozes de Eyshila e Paulo César Baruk, entre outros, inclusive o padre Fábio de Melo. Grupos históricos, carismáticos e pentecostais, tanto no catolicismo quanto no protestantismo, entoam essa canção em seus cultos e celebrações. Ela tem sido cantada até mesmo por grupos afro-brasileiros e em rodas de pagode. Em 2022, a música ganhou maior projeção quando Kleber Lucas gravou um clip com um dos maiores cantores da música popular brasileira Caetano Veloso, que já se declarou ateu convicto.

A canção de Kleber Lucas conseguiu agradar tanto ao gosto do público no canto congregacional quanto nas programações de rádio. Ela compõem o imaginário da espiritualidade brasileira e orienta as práticas de oração e buscas de experiências de Deus de quem a ouve, pelo fato de a sua letra apontar para o o sentido teológico da presença divina.

Quando a Escritura declara que Deus cuida de nós, isso implica algumas definições teológicas fundamentais para o exercício da fé. Ela declara que o Deus da vida se faz presente entre nós em qualquer circunstância. É uma afirmação de que o Deus que é amor se faz comunhão e fortalece a crença e a esperança de que o Deus de Justiça age em favor da paz.

O Deus que cuida de nós está conosco é o mesmo que se afasta para que possamos compreendê-lo. O Deus onipresente muitas vezes se mostra ausente para que possamos cuidar de nós mesmos. O Deus que está próximo ao mesmo tempo está distante para que possamos busca-lo. A relação com Deus é sempre atravessada por uma tensão que envolve presença-afastamento, onipresença-ausência, proximidade- distância.

Experimentar o Deus que cuida de nós implica um exercício de aprendizado sobre quem Ele é, acolher o seu convite amoroso, desfrutar de seu cuidado e amar os espaços em que ele se revela. A canção nos traz essa proposta de espiritualidade de encontro com Deus, conosco e de comunhão.

Assista às mensagens da série “Deus Cuida de Mim: Não estamos sozinhos” em meu canal do Youtube>>: https://www.youtube.com/playlist?list=PL4NVfVIy5Bi7ZJ0eQhXMEB4vBOhP0RDlX ).

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