segunda-feira, 6 de abril de 2009

Dimensão espiritual da violência / Spiritual dynamics of violence / La dinámica espiritual de la violencia

Começo a segunda-feira com a notícia trágica da morte do professor Almir, que teve sua vida interrompida pela violência. Não quero estabelecer juízo sobre a ação de quem atuou como franco-atirador. Mas preciso entender como que nos permitimos como sociedade construir quadros como esse e que nos deixam perplexos diante do drama humano. Para isso, quero adotar aqui alguns conceitos do livro A violência e o sagrado, de René Girard (publicado no Brasil pela Editora da Unesp e Paz e Terra), que desenvolve um modo de compreender que a vítima da violência hoje tem as mesmas características dos atos sacrificiais primitivos.
Para Girard, a violência está fundamentada no caráter mimético do desejo, em que um sujeito estabelece uma relação assimétrica de discípulo e modelo com outro sujeito, de tal modo que um deseja imitar o outro e, diante da impossibilidade de o fazer, o vê como um rival. O sentido dos sacrifícios nas sociedades primitivas era fundado nessa concepção. A própria palavra sacrifício significa tornar-se sagrado. Diante de uma situação de crise, é necessário encontrar uma vítima, personificado em idéias como de um bode expiatório, que absorva todo o mal enfrentado pelo grupo e que passe ser a fonte de realização para o grupo que o vitima. Essa experiência é fundadora de uma dimensão sagrada da violência e que se constitui também como fundadora de cultura.
A violência que ameaça a sociedade é transferida para uma vítima. Essa é uma solução pacificadora que racionaliza e equaciona o problema da violência. Em lugar da violência de um contra o outro, adota-se a violência de todos contra um como efeito preventivo. Desse modo, a vítima escolhida não tem o direito de vingar-se exatamente porque vive à margem da sociedade. Por isso, deve ser eliminada. E aí que se estabelece a distinção entre o mesmo e o outro, a base da diferenciação. O grande problema está no risco da indiferença, quando não se consegue identificar a vítima para se transferir a culpa.
É dentro da esfera da indiferença que está a violência generalizada, que cada vez mais se instala na sociedade contemporânea. As pessoas hoje precisam encontrar culpados pelos seus fracassos, de tal modo que a ação de franco-atiradores tem se constituído em uma paranóia desse tempo. É o mesmo problema que constitui o poder paralelo do tráfico e do crime organizado, através dos “tribunais” que julgam os traidores e os condenam ao extermínio.
Mas também está a banalização do mal, aquilo que Hanna Arendt se referiu a Eichmann, quando de seu julgamento pelos crimes praticados em nome do nazismo: um homem horrivelmente comum e normal, que era capaz de cumprir ordens, mas não conseguia estabelecer uma diferença entre bem e mal, incapaz de pensar por si mesmo. Essa atitude faz parte da complexidade da condição humana e emerge quando se compactua com o sofrimento, a tortura e a própria prática do mal como parte de nossa rotina, quando os fatos violentos já não nos chocam mais, a menos que se tornem hediondos.
Diante das muitas formas que a face da violência se apresenta, surge a pergunta: de que forma podemos lidar espiritualmente com o problema da violência? Cabe, então, a afirmação de Martin Luther King: “Hoje não temos mais a opção entre violência e não-violência. É somente a escolha entre não-violência ou não-existência.”

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