quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Deus ludens / God plays / Un Dios que juega

“... dia a dia eu era o seu prazer e me alegrava continuamente com a sua presença” (Provérbios 8.30)
Tomás de Aquino disse certa vez que Deus brinca, que ele cria brincando. A ideia de um Deus ludens, que brinca, que é bem-humorado, que cria brincando, remete a uma concepção de mundo que desperta a noção de que também devemos encarar a realidade pelo viés de uma brincadeira, com bom humor. O lúdico comporta uma compreensão do mistério e nos confronta com a realidade que Deus vê como uma brincadeira.
O aspecto lúdico do cuidado de Deus com a criação serve como um contraponto diante dos argumentos que reforçam a racionalidade do logos. A racionalidade não é apenas lógica, ela é também lúdica. O lógico e o lúdico se complementam e se realizam no agir criador de Deus.
O racional e o lúdico estão presentes na criação de tal modo que a natureza não é só logos, nem é só ludens, mas está marcada por uma logicidade atravessada por bom humor e mistério. A ideia do Deus faber, que cria como um artesão, se completa com a imagem do Deus ludens. Deus não faz uma obra por necessidade. Ele cria por prazer.
A natureza está permeada pelo lúdico e, por conseguinte, marcada pelo mistério, que se mostra como indecifrável e o imponderável. A tradição cristã já se referia à natureza da criação como resultado de uma inteligência divina, criadora e transformadora. Gregório de Nazianzo, em 390, chegou a afirmar que o Logos sublime brinca. Enfeita com as mais variegadas imagens e por puro gosto e por todos os modos o cosmos inteiro”.
Isso não nega a tese de Albert Einstein, para quem “Deus não joga dados com o Universo”. Ele brinca. O salmista diz: Quantas são as tuas obras, Senhor! Fizeste todas elas com sabedoria! A terra está cheia de seres que criaste. Eis o mar, imenso e vasto. Nele vivem inúmeras criaturas, seres vivos, pequenos e grandes. Nele passam os navios, e também o Leviatã, que formaste para com ele brincar” (Salmos 104.24-26).
A criação inteira é dotada de uma capacidade para se recriar e se reinventar que é chamada de liberdade, e isso também vale para o ser humano. As narrativas da criação demonstram que, antes de criar o homem, Deus dá forma ao mundo a fim de que este acolha o humano, numa relação de parceria e de organização que se realiza através de um devir criativo que caracteriza a existência. O universo provoca a que o humano não se limite a uma representação, mas que assuma sua própria mundanidade como seu modo próprio de ser.
O ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, não é um mero trabalhador que gerencia a terra ou um espectador da exuberância da natureza, mas é convidado a tomar parte dela e a construir sua existência na realidade do mundo criado. Como diria o místico mestre Eckhart, se somos criados por um “rir contagiante” somos também motivados a louvar ao criador com criatividade e alegria.
A encarnação de Deus em Cristo é o auge desse jogo da vida, através do qual Deus quer tomar parte da história do mundo, em que o eterno se faz temporal, em que o celestial se faz mundano, em que o onipotente assume a morte, a fim de que a criação tenha oportunidade de redenção, em exercício de liberdade. Um Deus que se esvazia para se tornar aquilo que não é.
Por isso o salmista canta: Regozijem-se os céus e exulte a terra! Ressoe o mar e tudo o que nele existe! Regozijem-se os campos e tudo o que neles há! Cantem de alegria todas as árvores da floresta, cantem diante do Senhor, porque ele vem, vem julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos, com a sua fidelidade!” (Salmos 96.11-13). E a sabedoria em Provérbios fala de como Deus se alegra com a alegria de suas criaturas: “... dia a dia eu era o seu prazer e me alegrava continuamente com a sua presença” (Provérbios 8.30).
Tomás Aquino afirmou, por isso, que “o brincar é necessário para levar a vida humana”. Ser bem-humorado, conviver com mais riso, cultivar o lúdico e fazer piada da vida são atitudes que proporcionam uma nova visão do mundo. Há muita gente séria que está morrendo por falta de humor. A sabedoria que se alegra com o Deus ludens também diz: “Eu me alegrava com o mundo que ele criou, e a humanidade me dava alegria” (Provérbios 8.31).
Brincadeira para Deus é coisa séria. Ele é alegria do começo ao fim. Parafraseando Nietzsche, o criador leva a brincadeira a sério porque leva a sério a si mesmo. Fernando Pessoa falou, com o pseudônimo de Alberto Caeiro, do seu menino Jesus, a Eterna Criança: Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava. / Ele é o humano que é natural, / Ele é o divino que sorri e que brinca. / E por isso é que eu sei com toda a certeza / Que ele é o Menino Jesus verdadeiro. Um menino assim tão humano só poderia ser divino, acrescenta ele. Rubem Alves disse que Deus vê o universo como uma caixa de brinquedos. E arrematou: “Deus vê o mundo com os olhos de uma criança. Está sempre à procura de companheiros para brincar”. Ainda bem. Isso quer dizer que o mundo ainda tem jeito.

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