quinta-feira, 3 de abril de 2014

Mística da cruz / Mystic of the cross / Mística de la Cruz

Lucas narra a trajetória de Jesus até a cruz de forma muito curiosa. No capítulo 23, logo após o julgamento, Jesus inicia sua caminhada observado por muitas pessoas. Certamente, a maioria que estava ali não era a favor da condenação, mas assistia com diferentes olhares aquele homem enfraquecido pelos açoites carregando uma cruz.
Quem eram as pessoas que estavam ali na via crucis da história? Eram pessoas com identidades distintas, mas que acabavam encontrando a si mesmas diante daquele escandaloso espetáculo. A primeira pessoa a ser mencionada é Simão, o cireneu, que nem era dali. Constrangido a ajudar a Jesus, teve que carregar o peso da cruz, mesmo sem vontade de fazê-lo. Era um visitante que veio à Jerusalém para a festa da Páscoa. Nenhum seguidor de Jesus foi compelido a carregar a cruz, mas sim um estranho.
Lucas fala da multidão que se estendia ao longo do caminho. A grande quantidade de curiosos era marcada pela dor e repulsa por aquele momento trágico. O espetáculo da crucificação levou as pessoas a baterem no peito, que era o sinal de luto. Poderia ser também um sinal de contrição, clamando por misericórdia por si mesmos, o que não acontecia naquele momento. As mulheres geralmente acompanhavam os funerais com cânticos e choro, produzindo muito barulho. A multidão, entretanto, apenas acompanhava a execução.
Ao chegar ao Calvário, o monte da crucificação, Jesus foi crucificado entre dois criminosos. A condenação à cruz era destinada aos crimes mais hediondos. Um zombava de Jesus, mas o outro o identificou como aquele que pode perdoar e propor uma nova vida, ainda que no restinho dela.
As autoridades que executaram a crucificação zombaram de Jesus, argumentando contra a sua condição de Messias e Salvador. Ao final, o centurião, chefe da tropa que comandou a execução, teve que reconhecer a inocência de Jesus e glorificou a Deus.
Não podemos nos esquecer daqueles que eram seguidores de Jesus, que apenas ficaram contemplando a tudo de longe. As mulheres mencionadas eram as que serviram a Jesus. Talvez não fosse aconselhável envolver-se demais.
O trajeto percorrido por Jesus até a cruz acabou se constituindo num exercício espiritual repetido através da história do cristianismo, em que fiéis são conduzidos a meditar em cada parada de Jesus durante a caminhada, que ficou conhecido como via crucis, ou via sacra, ou mesmo via dolorosa. Atualmente, esse exercício inclui 14 estações que lembram etapas desse trajeto, que são relembradas no chamado período da Quaresma, que antecede a Páscoa. Muitos religiosos escreveram meditações para esse exercício, entre eles os dois últimos papas João Paulo II e Bento XVI. Os católicos costumam se referir a Jesus na via sacra como o Senhor dos Passos.
Lutero desenvolveu sua teologia a partir da cruz. Para ele, a nossa condição de pecadores nos impede de conhecer Deus em sua glória. A sabedoria humana jamais permitirá um conhecimento de Deus como ele é. A forma com que o homem pode conhecer Deus é através do sofrimento da cruz. É na cruz que encontramos a nossa redenção e é nela que Deus revela seu amor. Olhar para a cruz é encontrar Deus, não no lugar onde queremos vê-lo, mas no lugar onde ele se revela em toda a sua plenitude.
Na cruz, Deus se mostra humano: impotente diante da morte, humilhado pela culpa que tomou para si. Ali, todas as nossas ideias sobre quem ele é e sobre quem nós somos são lançadas por terra. O que fica é a confrontação com alguém que se faz frágil, que se entrega ao sofrimento e se expõe ao escândalo. Muitos querem encontrar Deus em meio às circunstâncias da vida, perguntando-se por onde ele está. Só o encontraremos se o buscarmos no lugar mais escondido, nas noites escuras da vida que envolvem o comprometimento com a morte de Jesus na cruz. Isso nos humaniza, porque nos expõe à nossa própria fragilidade. Sem a experiência com o caminho de Jesus até a cruz, a fé se torna vazia.

A cruz nos chama para uma espiritualidade que nos impõe um paradoxo. Muitos seguem a Jesus até o partir do pão, mas poucos assumem o desafio do cálice da paixão. Muitos buscam a Jesus por causa dos seus milagres, mas poucos o seguem até a cruz. Muitos querem um cristianismo de boas realizações, mas poucos compreendem a entrega de si na cruz. Refletir sobre a cruz é encontrar-se consigo mesmo no lugar em que Deus, na história, se revelou como um de nós.

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