terça-feira, 17 de novembro de 2015

Terrorismo: reflexões sobre os atentados de Paris / Terrorism: reflections on the attacks in Paris / Terrorismo: reflexiones sobre los acontecimientos de París

Os atentados que aconteceram simultaneamente em Paris, na noite da sexta-feira 13 de novembro de 2015, são resultado do conflito civilizatório que a humanidade tem experimentado. De um lado, se percebe uma reação ao processo de ocidentalização do mundo; de outro, uma busca por afirmação de valores que são caros para o Ocidente, como são a democracia, a liberdade e os Direitos Humanos.
O processo de ocidentalização do mundo aponta para um problema grave, que é o fato de que o pensamento ocidental vem acompanhado de toda a tendência neoliberal e do capitalismo em sua forma mais selvagem, que são marcados pelo individualismo hedonista, pela ganância e a sede de lucro a qualquer custo. Isso faz com que a afirmação dos valores ocidentais se dê através de uma contradição, que envolve a concentração de riqueza e poder em meio ao aumento das condições concretas de desigualdade.
Este quadro faz emergir toda forma de estereótipo. A cultura ocidental construiu uma imagem do Oriente Médio como sendo uma região dominada por um misto de sedução e mistério. Filmes e literaturas ocidentais realçam a vida nos países árabes como permeada tanto de danças do ventre quanto de práticas de vingança, traições, ódio e rancor por parte de extremistas religiosos. O Oriente Médio, tal como conhecemos hoje, tem muito de invencionice ocidental. Não resta menor dúvida que algo semelhante acontece na contramão. Os discursos fundamentalistas orientais acabam criando uma imagem do Ocidente como recheada de devassos, blasfemos e hereges.
Por outro lado, a cultura oriental enfrenta uma situação em que, em meio às várias expressões de organização da vida social, emerge uma tendência de se lançar mão de argumentos religiosos para justificar o acesso e o controle do poder. O Ocidente já conheceu essa história: a mistura entre poder e religião não traz bons resultados. Com isso, tenta se justificar toda forma de opressão e cerceamento da liberdade, bem como o combate a tudo aquilo que se apresenta como ameaça ao projeto de poder, a partir do discurso fundamentalista. De fato, o mundo árabe está em busca de identidade e os diversos grupos oligárquicos lutam para se manterem em evidência, muitos deles com grande poder bélico e muito petróleo. Diga-se de passagem que grande parte do poder bélico que está na mão desses grupos é fornecida pelas próprias potências ocidentais que, por não conseguirem exercer o controle nos territórios em conflito, treinam e municiam milícias locais para o combate em terra.
A organização conhecida como Estado Islâmico, ou ISIS (sigla em inglês) ou Daesh (em árabe), é um retrato disso: um grupo jihadista que se formou a partir das lideranças oriundas da Al-Qaeda e da participação na guerra civil síria. Eles utilizam os próprios mecanismos de poder do Ocidente para fazer valer seus interesses. O foco não é religioso, mas político-econômico. O que está em jogo é a institucionalização política dos califados oligárquicos, que tem em seu controle muito petróleo e armamento bélico. Esse grupo ainda faz uso da religião para reforçar o discurso de poder e impor, pelo medo e terror, suas intenções.
A estratégia do terror é marcada por ações coordenadas, visando atingir alvos simbólicos, caracterizadas pela espetacularização dos atentados. O terror chega a fazer uso de elementos da pós-modernidade para atingir a humanidade em suas fragilidades. Não é a toa que os alvos em Paris foram espaços frequentados por jovens em pleno exercício de sua liberdade de entretenimento. Da mesma forma, o atentado de 11 de setembro de 2001 atingiu a potência norte-americana em seus símbolos de poder político, militar e econômico.
Entretanto, não é isso que faz com que o terror seja pior ou menor do que o que acontece nas áreas de conflito no Ocidente. Outras práticas terroristas já são conhecidas. Ações do IRA, do ETA ou das FARCS já fizeram uso de práticas terroristas. Isso não é diferente também nas áreas dominadas pelo narcotráfico e por ideologias extremistas, seja de direita ou de esquerda.
O terrorismo é essa tática militar de impor uma forma de poder por meio do medo, com vista a produzir o efeito psicológico de subordinação ao regime que se quer implantar. Pode ser praticado por grupos políticos, movimentos separatistas e até por governos em exercício. Lutar contra o terrorismo é um dever por parte de quem deseja ver a paz reinar. Entretanto, é um erro pensar que a luta contra o terror se faz com mais guerra. O risco de um círculo vicioso de retaliações bem como o de aumentar o emprego de práticas xenofóbicas contra imigrantes e refugiados são possibilidades reais.
Embora no campo político a guerra seja uma complexa instituição de controle, a luta contra o terror precisa trilhar outras vias. É preciso que a humanidade se dê conta de que, quando a vida coletiva está em perigo, só a união de esforços pode apontar um caminho possível. As pessoas cujas vidas são orientadas pela fé e pelo bom senso precisam se levantar para o cuidado e a proteção uns dos outros, para a prevenção da violência, para o combate a toda forma de desigualdade e para a garantia de toda a forma de vida no planeta. Isso vale para Paris, Mariana, Síria, Turquia, Irlanda, Colômbia, México, Complexo do Alemão, enfim, seja onde for que a vida de todos esteja em risco.

Sensibilizar-se diante do horror e da tragédia é uma atitude humana. Lembra-nos que somos gente. Mexeu com meu semelhante, mexeu comigo. Eu sou um com ele. A inércia e a indiferença é que são atitudes desumanas e devem ser não só combatidas, mas rejeitadas veementemente. (Foto: REUTERS/Benoit Tessier. Fonte: Globo.com)

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