sexta-feira, 7 de abril de 2017

Por que ainda sou evangélico? / Why am I still an evangelical? / ¿Por qué sigo siendo evangélico?

Sou cristão, ligado à vertente protestante, filiado a uma igreja batista. Como tal, fui instruído com base em uma teologia reformada em um seminário confessional mantido pela denominação batista mais tradicional. Isso me identifica como uma pessoa de confissão evangélica. Porém, essa afirmação não é suficiente para descrever a minha condição de religiosidade.
O que é ser evangélico? Essencialmente, deveria corresponder a uma pessoa que orienta sua vida, suas práticas, seu discurso, suas relações e suas esperanças pelo evangelho. A palavra “evangelho” vem do termo grego que corresponde a “boa notícia”, aquela que é alvissareira, que aponta um olhar para o futuro. O evangélico deveria ser, então, alguém que anuncia uma notícia boa para um mundo cansado de notícias desalentadoras, que declara que há saída para um mundo perdido.
Mais recentemente, o termo “evangélico” passou a designar um tipo de religioso, que faz parte de um segmento do cristianismo originário do movimento protestante. Sendo assim, faz referência a um contexto que comporta uma diversidade de formas e expressões. Quando se fala de evangélico, deve se ter em mente a pluralidade que isso comporta. Entretanto, nota-se o crescimento de uma tendência de se rotular de evangélico todo cristão adepto de igrejas que são marcadas por uma teologia simpática ao individualismo e ao consumismo, com uma moral conservadora e uma atitude fundamentalista.
Enquanto segmento religioso, os evangélicos não são todos iguais. Há evangélicos que são de esquerda e de direita, que lutam por direitos sociais e que defendem interesses do capital, que se importam com a causa do oprimido e que apoiam a bandeira da propriedade privada, que têm uma posição mais aberta para as questões de gênero e que são radicais e tradicionais nesse assunto, que buscam uma espiritualidade mais humanizadora e que professam a fé com base em uma teologia fundamentalista, que desenvolvem uma análise mais crítica das Escrituras e que afirmam a inerrância bíblica.
Além disso, as igrejas evangélicas se diversificam quanto as formas de organização, liderança e de culto. Daí a infinidade de denominações cristãs. E essa diversidade não é de forma alguma prejudicial. Cada igreja procura se estruturar para dar conta de suas necessidades e conflitos. Mesmo dentro de uma determinada denominação, há uma variação de condutas. Isso se dá pelo fato de que as denominações não são formas sagradas, divinas, reveladas, mas resultados de relações políticas em que estão em jogo interesses e exercício de poder.
Em tempo de maus exemplos e escândalos envolvendo bancada evangélica e lideranças evangélicas, é muito comum encontrar representações esquivando-se do uso desse termo. Ao longo dessa minha jornada evangélica, tenho visto pessoas que condenam essas atitudes, mas conservam um desejo pelo poder. Já vi pessoas que criticavam as estruturas denominacionais até terem uma oportunidade de exercer um cargo e já vi pessoas que ocupavam cargos, mas que passaram a criticar essas mesmas estruturas após serem destituídas ou demitidas. Enfim, essa atitude condenatória, embora tenha uma causa justificável, está mais para um certo ressentimento do que para uma análise crítica, que se faz necessária.
Continuo afirmando minha condição de evangélico. Não deixei de ser evangélico porque desejo ser anunciador de boas notícias, com a palavra e com a vida, para um mundo que está desorientado. E, como tal, reafirmo meus vínculos com o segmento protestante, com uma teologia reformada e com a igreja batista, que são expressões que remetem a essa condição. E o faço não porque julgue tais expressões como melhores ou mais perfeitas, mas que estão ligadas à minha história de vida.
Sou protestante porque rejeito as formas simbólicas com que a religiosidade ocidental se configurou. O meu protesto se direciona para a estrutura hierárquica da autoridade eclesiástica, para a centralização do poder da igreja, para a afirmação de uma teologia dogmática que não comporta o diálogo, para as formas engessadas de expressões litúrgicas.
Sou adepto da teologia reformada porque entendo que há uma depravação humana que tem uma causa originária, para a qual as Escrituras apontam a graça revelada na pessoa de Jesus Cristo como única esperança de salvação. É por meio da graça que posso compreender Deus como sendo uma Trindade, que está comprometido com uma missão e que reivindica para si toda a criação para tomar parte do seu Reino. Por ser uma teologia reformada, ela se faz por meio do diálogo e aberta a estar sempre se reformando. Fora disso, a vida é sem graça.
Pertenço a uma igreja batista porque é a única denominação cristã que tem em seus princípios a defesa da liberdade de expressão e da tolerância religiosa. Pelo menos em seus princípios. A realização prática é outra história. Foi na igreja batista que aprendi com meus antigos pastores o respeito à diversidade religiosa e de culto, a separação completa entre igreja e Estado, a prática da democracia e a defesa do direito de livre expressão.
Sei que essa forma de ser parece estar na contramão do que a maioria tem colocado em prática. Entretanto, procuro construir uma espiritualidade à luz dessa compreensão, que esteja voltada para o humano a partir dos mais vulneráveis, que respeite as diferenças e que valorize a liberdade. É a partir do lugar em que sou construído como evangélico que posso dialogar com outras expressões e contribuir de algum modo para o debate sobre as necessidades humanas. Nesse sentido, sou evangélico crítico e comprometido com as demandas do evangelho de Jesus.

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