sábado, 27 de março de 2010

Espiritualidade e comunhão / Spirituality and communion / La espiritualidad y la comunión

A igreja do primeiro século da era cristã desenvolveu um sentido de comunhão que proporcionava inter-relações profundas e saudáveis, apesar de todos os conflitos, diferenças e circunstâncias a que os cristãos, de um modo geral, estavam envolvidos. A base dessa compreensão pode ser resumida na expressão de Paulo: “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus” (Gálatas 3.28). Ser cristão significa simplesmente crer e amar. Jesus afirmou que quem crê já passou da morte para vida. João também afirmou que aquele que ama já passou da morte para a vida. E isso era vivido intensamente na vida comunitária de forma concreta.
Algumas evidências desse espírito de comunhão que permeava as comunidades cristãs podiam ser identificadas claramente, a começar na concepção do batismo como rito de iniciação, que se opunha à circuncisão judaica. Enquanto o batismo é símbolo de acolhimento universal de homens e mulheres, resultado do ato de crer, a circuncisão era excludente. Isso reforça o fato de que o ethos cristão é de igualdade.
A vida da igreja é que possibilitava a comunhão nessa dimensão, sinônimo de salvação e princípio para afirmação de uma comunidade que se propõe ser seguidora de Jesus no mundo.
Essa comunidade, que vive em comunhão, nasce de uma experiência espiritual comum. O grupo que se manteve no cenáculo reunido após a ressurreição não tinha um projeto de igreja ou mesmo um plano de ação, mas tinham em comum o fato de terem uma relação com Jesus. A experiências que eles viveram no dia do pentecostes foi transformadora, como se fosse uma recriação do próprio sentido da vida, que lhes conferiu coragem, que lhes conferiu capacitação para que vivenciassem a expansão da igreja.
Nessa experiência, nem mesmo a linguagem seria suficiente para expressar o que acontecia. A experiência espiritual que tiveram estava para além das relações simbólicas. O Espírito Santo lhes reacendeu a paixão pelo Jesus que se fez história e operacionalizou a comunhão entre eles. Dali, lavanta-se um grupo que se entende com a missão de fazer com que a humanidade reencontre o caminho para a felicidade. É a comunhão que confere a humanidade a condição que Deus deseja para ela. Essa comunhão provoca deslocamentos na nossa relação com o mundo. A temporalidade já não se limita mais ao cronos, mas ao kairos de Deus. O lugar de realização pessoal é a conformação com Cristo, como se fosse um êxodo de si mesmo para viver o que Cristo propõe como ensino e vida. O que passa a pôr ordem em nossa relação com o mundo é a maneira como construímos a nossa identidade, a ordem em favor do amor e da liberdade nas ações cotidianas. Somos deslocados do espaço de nós mesmos para vivermos no espaço do outro.
Esse modo de compreender a comunhão na igreja primitiva faz parte de um conjunto teórico conhecido como eclesiologia da comunhão, que tem ajudado a igreja contemporânea a redescobrir a sua relevância para esse tempo.

Um comentário:

  1. Belo Texto

    Não poderia me formar sem ter Irenio como meu professor... Uma pessoa inteligentissima... Ainda não conseguir ter o prazer de ler seus livros toda semana peço e ele esqueçe.

    Belissimo BLOG...

    Parabéns

    Abraços e ate terça...

    André Souto

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