quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Mística e ética / Mystic and ethics / La Mística y la ética

A relação entre mística e ética pode ser compreendida a partir de três pensadores: Albert Schweitzer, Emanuel Lévinas e Maurice Zundel. De um modo geral, a história do pensamento humano comporta sistemas antagônicos que têm levado a humanidade a buscar entender a vida em si mesma. Schweitzer afirmou que “o essencial para perceber a ética é que esta é a própria manifestação da nossa vontade de viver”. Essa inquietação resultou em uma busca de sentido, dando lugar a uma ética que Schweitzer classifica como: racional, universal, absoluta e espiritual.
Nesse sentido, a ética é espiritual na medida em que a ética comum não é suficiente para o desenvolvimento espiritual. O pensamento humano sempre procura alcançar a harmonia com o Espírito misterioso do Universo. “Para ser completa, tal harmonia deve ser ativa e passiva. Ou seja, buscamos a harmonia, tanto na ação e no pensamento. Eu quero entender a minha atividade ética como sendo a serviço do Espírito Universal.” A filosofia moderna, entretanto, conduz apenas a uma passividade e nos remete à religião, ou seja, não coloca o sujeito numa relação ética com o universo. Isso só acontece quando se coloca a serviço dele, cooperando com ele, sem tentar compreendê-lo. “Somente servindo todo tipo de vida eu entro no serviço dessa vontade criadora de onde emana toda a vida. Eu não entendo isso, mas eu sei (e isso é suficiente para viver) que, por servir a vida, eu sirvo a vontade criadora. É através da comunidade da vida, não uma comunidade de pensamento, que eu permanecerei em harmonia com a Vontade. Este é o significado místico da ética.”
Reportando-se ao mestre Eckhart, considera que nessa ética universal de reverência pela vida, a união mística com o Espírito Universal é realmente e plenamente alcançada. Assim, provou ser realmente a verdadeira ética. Segundo Eckhart, deve ficar claro que uma ética que só manda é incompleta, enquanto a que me permite viver em comunhão com a vontade criadora é uma ética verdadeira e completa.
Já Lévinas discute a construção filosófica da noção de totalidade, que marcou o pensamento ocidental, fundado numa perspectiva bíblico-judaica. Para ele, a filosofia ocidental sempre tende para a redução do Outro ao Mesmo. Contudo, a filosofia primeira é a ética. Ele vai buscar o fundamento ético no rosto do outro, uma vez que é na face do humano que se dá o sentido, em que o sujeito se descobre responsável e se abre para o infinito.
Lévinas está interessado, não no mundo fechado do indivíduo nem no universo distante do outro, mas na relação que se estabelece, que provoca a inquietação e lança o indivíduo para fora de si. Velasco vê no pensamento de Lévinas uma proximidade com a mística, ainda que a tenha rejeitado, por causa da sua noção de transcendência. Sua interpretação da experiência ética a respeito do Absoluto, a rejeição de toda mediatização, a exigência de cuidado que remete o sujeito ao rosto indefeso do outro são aspectos que evocam a transcendência incondicional de si, como condição própria de realização, e que se constitui na essência da experiência mística.
Para Lévinas, “a transcendência é ética, a voz de Deus é o rosto do próximo”. E mais: “A relação moral reúne, pois, ao mesmo tempo a consciência de si e a consciência de Deus. A ética não é o corolário da visão de Deus, é essa visão mesma. A ética é uma ótica [...] conhecer Deus é saber o que se tem que fazer.”
Uma última abordagem da relação entre ética e mística pode ser encontrada no pensamento de Zundel. Ele tenta fazer uma análise das origens da crise moral que a humanidade se encontra. “A moral está em crise.” Essa crise tem duas raízes: a recusa da moralidade como limitação, como um freio, e o declínio do Absoluto que é posto em questão.
Zundel percebe que há um desacreditar em uma moral da obrigação, que nasce da necessidade de proteção da ordem social. Ela encontra seu lugar na antropologia, que traz á tona a pergunta a respeito do que é homem. Mas o homem é uma soma de determinismo e promessa de liberdade. Por isso, a moral deve ser vista como uma realidade mística, que envolve toda a pessoa em relação com o Deus de amor, que o atrai a Ele. A questão envolve três atitudes: a de receber Deus como uma experiência interior e de liberdade; a experiência de se tornar filho de Deus como expressão de sua presença em nós e nos outros; o homem é chamado a ser como Deus por graça, na intensidade dessa relação.
Esse é o caminho de nossa humanização, uma vez que esse desejo de liberdade e amor está inscrito no coração de cada um. Essa descoberta é humanizante. Essa moralidade tem um viés místico, que pode se chamar de um realismo místico. Uma moral libertadora que abrange todas as ações que envolvem o corpo, as paixões, a relação entre homem e mulher, o direito a propriedade, as relações internacionais, a partilha dos bens, como uma exigência para se criar um espaço vivencial sem o aspecto legalista.

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