quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Qual o sentido da vida? Refletir sobre a existência como forma de resistência / Reflection on existence as resistance / La reflexión sobre la existencia como una forma de resistencia

Quando a gente passa por situações que demandam muito estresse, angústia e desilusão, é muito comum se perguntar qual o sentido da vida. Qual o sentido da vida? Eu tenho uma resposta boa e uma ruim para essa pergunta. A ruim é que a vida não tem um sentido. O que faz a vida ter sentido é viver. A boa é que, na medida em que vivemos, a vida vai ganhando novos contornos a partir das relações que construímos.
Não acho legal ficar procurando o sentido da vida, até porque o bom da vida está ligado às coisas que construímos e que sonhamos. Perguntar pelo sentido da vida é levantar a questão antiga da filosofia sobre a existência. Ela tem a ver com a nossa realidade individual concreta, que não dá para ser explicada ou demonstrada, mas que pode ser descrita e a partir da qual podemos estabelecer juízos de valor.
Aristóteles já dizia que a existência é um atributo do ser. É o fato de que você é aquilo que é. O problema é que a existência está vinculada imediatamente a uma essência. Ou seja, você é o que é na medida de suas circunstâncias.
A Modernidade procurou relacionar o sentido da existência à racionalidade. Descartes afirmou “Penso, logo existo” como se a existência dependesse do pensamento ou como se a base para se compreender a existência dependesse da razão. Espinosa, crítico de Descartes, disse que a existência implica um esforço. O que chamou de conatus ou o esforço de existir é uma característica do próprio ser. Hegel, de novo, tentou demonstrar que tudo o que é real é racional e tudo o que é racional é real. Mas ficaram de fora os aspectos imponderáveis de nossa existência.
Foi Kierkegaard quem se revoltou contra essa crença moderna de que a razão pode dar conta de todos os aspectos relacionados à vida, sejam eles morais, religiosos, políticos ou estéticos. Para Kierkegaard, a existência humana é marcada por três estágios que envolvem uma tentativa de resgatar a integridade do ser humano como uma pessoa que é capaz de fazer escolhas, que se angustia e que também se desespera. O primeiro estágio é o estético, aquele que é orientado pela aparência e pelo desejo numa busca de uma afirmação de si. O segundo estágio é o ético, que é orientado pelo valor e pela moral, procurando encontrar seu lugar na vida social. Porém, esses estágios não são suficientes para dar conta de nossa própria condição, resultando em um vazio. Para dar conta desse vazio, Kierkegaard propõe o salto da fé, que é assumir o que se é diante de Deus. É em meio a esse vazio que o homem encontra formas de rever seus valores e suas relações. Quando chega a esse ponto, encontra-se no estágio que Kierkegaard chama de religioso, que é aquele em que se torna possível reconhecer o valor de sua própria existência.
Heidegger, já no começo do século XX, entendeu que a existência é marcada por uma busca de sentido, um problema que nunca foi resolvido na filosofia. Ele construiu a noção do ser-aí, que é conhecido pela palavra alemã “dasein”. Embora o ser não possa ser definido em sua essência, é possível compreendê-lo a partir de sua relação recíproca como ser-no-mundo. Nesse sentido, a existência humana é dotada de um certo privilégio, pois é cercada por um senso de responsabilidade e de liberdade. A existência humana é marcada pela nossa mundanidade, pela nossa capacidade de transcendência, pela nossa temporalidade e pela nossa finitude. O ser humano está sempre diante da possibilidade de tornar-se algo, de projetar-se para além do que é, de encontrar vínculos entre o que já foi e o que ainda será, e de realização em meio à sua própria incompletude.
Por essa razão, Sartre afirmará que a existência precede e determina a essência. É, portanto, a nossa realidade que não dá para ser reduzida a uma mera explicação causal, mas que dá para ser percebida e analisada a partir de suas situações concretas. Nós nunca encerramos em nós mesmos a totalidade, mas estamos sempre abertos a novas possibilidades. Como disse o filósofo existencialista cristão Gabriel Marcel: “Existir é coexistir”.
O salmista se depara com esse dilema e registra: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali firmaste, pergunto: Que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes?” (Salmos 8.3,4). Não há uma razão lógica para isso. Está acima de todas as razões, como diria Miguel de Unamuno. Para o filósofo espanhol, enquanto houver vida em nós, se quisermos que ela possa valer a pena, não devemos procurar justificação alguma para nosso estado de luta interior, de incerteza e de anseio: “é um fato e basta”.

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