quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Intolerância e fundamentalismo / Intolerance and fundamentalism / La intolerancia y el fundamentalismo

O fundamentalista religioso é aquela pessoa que acha que pode fazer aquelas coisas que ele por si mesmo pensa que Deus faria se estivesse em seu lugar. Geralmente, tem uma compreensão de um deus que é justo e sem misericórdia, irado e sem amor, onipotente e sem compaixão, onisciente e sem tolerância.
Por causa de sua forma de pensar, o texto sagrado que adota não tem entrelinhas. A língua morta em que o texto foi revelado por inspiração divina direta é o único fator relevante para a interpretação e aplicação literal e legalista para hoje e agora, a verdade absoluta e imutável. Não há espaço para análise crítica, para a contextualização, para a compreensão das verdades divinas à luz do contemporâneo.
O sonho do fundamentalista é implantar uma cidade de seu deus aqui na terra, um território santo e protegido contra as muitas artimanhas do inimigo. Um reino de paz e prosperidade para que os fiéis pratiquem livremente sua devoção, com leis e estruturas nacionais que se misturam com a religião oficial, verdadeiro oásis de tranqüilidade. Uma terra santa que tem por dever se expandir através da conquista de outros territórios dominados pelas trevas espirituais.
O deus do fundamentalista exige adoração absoluta, normas rígidas de conduta, veneração, obediência cega à voz de seus porta-vozes iluminados. Os que se dão de corpo e alma por esse deus tem lugar especial garantido no céu. Porém, quem não se submete a esse deus iracundo será alvo de sua eterna insatisfação. E os que a isso se opõem são condenados ao castigo reservado aos inimigos e, se possível, deveriam experimentar do furor desse deus já nessa vida aqui, para que pereçam em seus atos pecaminosos desde agora até a vida futura.
Quem se identifica com essa condição de fé não consegue tolerar outra verdade. A intolerância gera o preconceito, o preconceito gera a agressão até gerar o combate e todas as formas de guerras para se exterminar o suposto mal, sempre com inúmeras vítimas inocentes.
E pensar que o termo “fundamentalista” foi usado pela primeira vez por grupos evangélicos que queriam ser fiéis aos ensinos das Escrituras! Como conviver com isso? Adotando um exercício crítico de nossa fé. É preciso dar um basta na idéia da fé cega de faca amolada. É preciso compreender que o Deus vivo e verdadeiro se manifesta em meio a diversidade e a adversidade. “Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes. E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são para aniquilar as que são” (1Co 1.27-28).
(Um texto antigo, da época do atentado de 11 de setembro. Parte das idéias aqui expostas estão no meu livro O que é religião, publicado pela MK em 2005.)

4 comentários:

  1. olá Irenio, obrigado pela visita.

    Seus textos são ótimos e gostei das duas ultimas postagens tambem.

    Eu ja tinha visto seu link no blog do Neuber, mas ainda não tinha visitado, agora estarei sempre por aqui.

    Estou sendo enriquecido grandemente pelos líderes da Orla. Quando eu for em Niterói (um dia) quero conhecer a igreja e vocês.

    Indico o blog do allenporto.blogspot.com, é um companheiro aqui da IBR e que escreve muito bem.

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  2. Irênio, não consigo entrar nos comentários dos outros posts...

    Neste você fala de um Deus vivo e "verdadeiro". Pois é, muitos vêm os evangélicos como fundamentalistas exatamente a partir dessa definição. Se o nosso Deus é verdadeiro, os outros são de mentira? Lamentavelmente não consigo ver como posso deixar de aceitar me rotularem de fundamentalista enquanto expresso aquilo em que realmente acredito.
    Não sou fundamentalista nas minhas ações, mas não posso afirmar a mesma coisa em relação à minha fé.

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  3. Oi Cristina
    Acho que se você clicar no título da postagem você encontra os comentários logo abaixo. Pelo menos é assim que acontece comigo.
    Quanto ao fundamentalismo, esse não é um mal só dos evangélicos. É um mal desse tempo, com a volta do radicalismo e da intolerância, semelhante ao que marcou alguns períodos da história da humanidade. Se fôssemos considerar o fundamentalismo da origem histórica, o que aconteceu no final do seculo XIX e início do século XX, promovido pelos protestantes norteamericanos para responderem ao liberalismo teológico crescente, diríamos que todos os evangélicos somos fundamentalistas de certa forma. Mas a crítica que se faz hoje ao fundamentalismo está muito mais relacionada à intolerância. Você devia ler a postagem O que é fundamentalismo. Tem um bom comentário do Edson sobre isso.
    Seus comentários são ótimos Sucesso. Desejo tudo de bom pra você.
    Ps: Pablo, valeu pela sua visita e observação. Quanto à igreja da orla, ela realmente é uma bênção.

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  4. Olá Irenio, seu comentario sobre o fundamentalismo está muito lúcido e, oportuno para a reflexão deste tempo louco que estamos vivendo.
    Todo extremo é perigoso. A graça de Cristo é diametralmente oposta ao fundamentalismo.
    A obediência a Deus sem a Graça dEle, não tem nenhuma graça.
    Do amigo de sempre,
    Luiz Antônio

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