sábado, 21 de maio de 2022

Jesus e as forças de caráter: como Jesus nos ensina a ser feliz / Jesus and character strengths: how Jesus teaches us to be happy / Jesús y las fuerzas del carácter: cómo Jesús nos enseña a ser felices

Nosso tempo tem sido marcado por uma busca imperiosa pela felicidade. O tema passou a ter uma relevância maior no cuidado com a saúde mental, principalmente com o avanço dos sintomas de angústia, depressão e ansiedade causados pelo modo de vida competitivo e cheio de exigências imposto pela cultura de mercado em vigor.

A necessidade de se ter sucesso a qualquer preço despertou a descoberta de que ele não é determinante para que alguém seja feliz, mas que a felicidade é imprescindível para se chegar ao sucesso. Isso quer dizer que o maior esforço que precisamos fazer não é ter o emprego dos sonhos, perder uns três quilos, ser promovido ou mesmo morar em um lugar paradisíaco. É preciso estar bem consigo mesmo. As pesquisas recentes no campo da psicologia têm demonstrado um novo paradigma, que é exatamente o oposto dessa mentalidade: a felicidade é que promove o sucesso, e não o contrário.

O campo de estudo que tem se dedicado à felicidade é o da Psicologia Positiva, que aponta formas objetivas para identificar os fatores que contribuem para o desenvolvimento pessoal e o bem-estar. Por essa razão, grandes universidades como Harvard e Unicamp têm promovido cursos com o tema da Felicidade com grande procura de alunos interessados em todos as áreas de conhecimento há mais de 10 anos.

Martin E. Seligman, no livro Felicidade autêntica, apresenta uma proposta de construção da felicidade a partir da conjugação de virtudes e forças de caráter. O trabalho foi resultado de uma ampla investigação em várias culturas, concepções filosóficas e expressões religiosas a respeito do que as pessoas fazem em busca do bem-estar, da felicidade e do desenvolvimento pessoal.

Foram identificadas 6 virtudes essenciais, que podem ser identificadas através de 24 forças de nossa personalidade que nos auxiliam em nossos modos de pensar, de sentir e de se comportar.

Veja a relação das virtudes humanas mais comuns e suas respectivas forças de caráter:

a) Sabedoria – Criatividade, curiosidade, critério ou pensamento crítico, gosto pelo aprendizado e perspectiva.

b) Coragem – Bravura, perseverança, integridade e vitalidade.

c) Humanidade – Amor, generosidade e inteligência social.

d) Justiça – Justiça, liderança e trabalho em equipe.

e) Temperança – Perdão, humildade, prudência e autocontrole.

f) Transcendência – Apreciação da beleza e da excelência, gratidão, esperança, bom humor e espiritualidade.

Para se alcançar a felicidade autêntica, é preciso dar atenção à maneira como desenvolvemos as virtudes e as forças de caráter, e qual o impacto disso em nossa saúde física, mental e coletiva. Por essa razão, a busca da felicidade se torna apenas um ingrediente na busca de amadurecimento. Muitas vezes, precisamos tomar decisões que podem trazer novos sentidos para a vida, mas que não são muito confortáveis. Também precisamos manter muitos relacionamentos que não nos fazem felizes.

As forças de caráter nos auxiliam na busca pelo florescimento, construindo em nós virtudes essenciais para viver no mundo e interagir com as pessoas. 

Seligman propôs, então, uma nova abordagem sobre a busca da felicidade no livro Florescer: uma nova compreensão sobre a natureza da felicidade e do bem-estar. Para ele, era preciso enfatizar o florescimento através do fortalecimento das emoções positivas, do engajamento, dos relacionamentos positivos, do propósito e da realização. Esses cinco elementos foram inseridos para que pudessem fortalecer nossa trajetória de vida. Ele compreende que as virtudes e as forças de caráter sustentam esses elementos. A maneira como nos empenhamos em buscar o bem-estar é que produz mais sentido de realização pessoal.

Florescer é despertar o humano que há em nós. A felicidade está mais relacionada com o se sentir bem mesmo em situações adversas. Para tanto, o modo como construímos nossa trajetória de vida é fundamental para que possamos experimentar o florescimento. Porém, uma vida feliz e satisfeita envolve critérios tanto subjetivos quanto sociais. Como diz Seligman, “o bem-estar não pode existir somente na nossa cabeça”.

A felicidade, portanto, é uma conquista que precisa ser feita continuamente. A mensagem e o ensino de Jesus visavam a formação de um novo sentido de humanidade. É possível fazer uma análise dos mesmos e identificar como ele desenvolveu as virtudes essenciais e as forças de caráter como fatores importantes para que possamos alcançar a vida feliz.

As seis virtudes (sabedoria, coragem, humanidade, justiça, temperança e transcendência) estão presentes nos ensinos de Jesus. Entretanto, Jesus se ocupou com a felicidade e com o bem-estar na perspectiva da salvação, como uma experiência de sentido para a vida toda. Para quem perdeu o sentido da vida, Jesus convida a aprender com ele o que significa viver plenamente.

Isso lembra o refrão de Tom Jobim e Luiz Bonfá: “Tristeza não tem fim / Felicidade sim”. É um engano pensar que conseguiremos a felicidade apenas pelas nossas forças. Ela não é uma conquista individual com também não conseguiremos ser felizes sozinhos enquanto muitos à nossa volta sofrem. Todos nós enfrentamos tanto circunstâncias que nos trazem felicidade quanto as que nos fazem sofrer. A vida não é um monótono programa de realizações pessoais. Ela é formada de uma sucessão de sucessos e fracassos, de conquistas e perdas, de realizações e frustrações. Jesus nos deixou claro que podemos ser felizes encontrando razões de viver tão significativas que façam com que até mesmo nas situações difíceis encontremos forças para seguir em frente.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Representações de Deus nos discursos de Jesus / Symbol of God: Representations of God in Jesus' Discourses / Símbolo de Dios: Representaciones de Dios en los Discursos de Jesús

O teólogo jesuíta norte-americano Roger Haight propôs uma nova compreensão cristológica diante das transformações do pensamento humano na pós-modernidade, que é considerar Jesus como o símbolo de Deus (em seu livro Jesus, Símbolo de Deus). Jesus, em sua vida, mensagem, morte e ressurreição, simbolizou Deus. Por isso, pode dizer: “Quem me vê, vê o Pai...” (João 14.9).

João Batista testemunhou que “Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido” (João 1.18). Em sua carta aos Colossenses, Paulo afirmou que “Ele é a imagem do Deus invisível [...]” (Colossenses 1.15). Essa definição está em sintonia com o que Jesus falou a respeito de si nos evangelhos. Ele disse aos discípulos: “Se vocês realmente me conhecessem, conheceriam também o meu Pai [...]” (João 14.7). E disse às multidões: “[...] Ninguém conhece o Filho a não ser o Pai, e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho e aqueles a quem o Filho o quiser revelar” (Mateus 11.27).

O simbólico é a dimensão das representações, a forma como expressamos o que está em nosso imaginário. De acordo com a gramaticalidade, a ideia de simbólico vem de symbolos, palavra formada por dois radicais gregos: o prefixo sym-, que traz a ideia de síntese, de união, e bolos, que lembra a ideia de arremessar e de lançar. O simbólico tem a ver com os sentidos que atribuímos a tudo o que diz respeito à nossa existência, que nos aproxima do conhecimento e da realidade. Leonardo Boff, no livro A águia e a galinha, lembra que isso difere do diabólico, que é o que nos afasta. A diferença está no uso do prefixo dia-, que quer tem a ideia de um movimento, com o sentido de “através de”. O diabólico tem a ver com o separa, nos afasta e desagrega.

O simbólico, portanto, confere sentido à nossa existência, enquanto que o diabólico causa impedimentos à nossa realização, como uma rejeição, resistência ou negação ao que nos constitui como pessoas. Todos nós carregamos essa capacidade tanto de construir e agregar valor à nossa existência quanto de descontruir e de destruir. Temos em nós tanto o sentido da vida quanto da morte, o que nos dá esperança e o que nos causa medo, o que nos fortalece e o que nos ameaça. Vagueamos o tempo todo entre o simbólico e o diabólico.

Jesus desenvolveu atitudes que fortalecem uma compreensão de Deus que tem a ver com a ideia de um Pai amoroso que se importa com as condições de vida de toda a criação, que faz justiça aos mais vulneráveis e que nos interpela a uma vida mais solidária. Ele procurou viver de um modo que fosse uma expressão do cuidado de Deus por toda a criação, demonstrou a justiça de Deus, expressou o amor de Deus através de suas atitudes e encorajou a vida de comunhão entre todos e todas que atraiu para si.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

A Mística e os Místicos / Mystique and Mystics / Mística y Místicos


Já está em pré-venda o livro A Mística e os Místicos, lançado pela Vozes e com a minha participação em dois capítulos. O primeiro é sobre Dietrich Bonhoeffer e o segundo sobre Teilhard de Chardin. Agradeço aos organizadores Eduardo Guerreiro Losso, Maria Clara Bingemer e Marcus Reis Pinheiro, bem como a todos os demais autores, pela oportunidade

 https://www.livrariavozes.com.br/-prevenda-misticaeosmisticos-a-6557132849/p

quinta-feira, 17 de março de 2022

Felicidade / Happiness / Felicidad


"A felicidade não está no final de um caminho, mas na maneira como fazemos a caminhada. São felizes os que desfrutam a vida em sua plenitude enquanto caminham."

Irenio Silveira Chaves, no e-book Felicidade segundo Jesus.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Mundo em guerra: o conflito entre Ucrânia e Rússia põe o mundo em alerta / World at war: the conflict between Ukraine and Russia puts the world on alert / Mundo en guerra: el conflicto entre Ucrania y Rusia pone en alerta al mundo

A notícia que chega ao Brasil e ao mundo na manhã do dia 24 de fevereiro é que o governo russo deu ordens para que suas tropas avancem sobre as áreas controladas por separatistas na Ucrânia. É o início da guerra entre os dois países. O conflito entre a Ucrânia e a Rússia vai além de uma disputa de fronteiras. Envolve as principais forças militares globais, controladas de um lado pelo ocidente e, de outro, pela própria Rússia e os membros da antiga União Soviética.

Não é a primeira vez, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, que uma potência invade o território de um país. Da mesma forma, não é a primeira vez, desde o período da Guerra Fria, que um conflito dessa magnitude coloca em xeque interesses e forças ocidentais e as potências orientais como as da Rússia e a China. O que há de novo nesse conflito é o uso da OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte, a antiga coalizão de defesa de um conglomerado de países ocidentais, para que o Ocidente amplie sua esfera de ação, avançando para mais próximo das atuais fronteiras russas, estabelecendo bases no leste europeu.

Há algumas feridas históricas que ainda não foram superadas. Uma delas é que a tensão entre capitalismo e comunismo continua regendo as relações internacionais, embora a chamada “cortina de ferro” tenha caído em 1991. Outra é que os Estados Unidos da América deixaram de ser a principal força bélica no mundo, perdendo para as potências da Rússia (que já foi comunista) e da China (que ainda mantém um comunismo “de mercado”). E o próprio fato de a OTAN estar envolvida nesse conflito dá indicativos de que, com o fim do Pacto de Varsóvia, o mundo ficou mais vulnerável às pressões do Ocidente e dos poderes dominados por interesses capitalistas.

A humanidade chegou ao século XXI mais suscetível aos conflitos internacionais. Alguns teóricos da chamada “Guerra Justa” até procuram justificar a necessidade de conflitos armados em face da pluralidade de estados e nações. Entretanto, a guerra nunca se justificou em tempo algum, a não ser pelos interesses de poder por parte de governos que querem ampliar sua esfera de ação. Não há justificativa moral para a guerra, nem mesmo para as guerras religiosas. Ela é resultado do exercício do poder.

Santo Agostinho foi um dos primeiros a constatar esse aspecto da guerra. Para ele, todas tinham como causa primeira a ação de uma pessoa que exerce o poder e, como consequência, o desejo de causar dano ao outro a fim de alcançar os objetivos de poder. Não importa se as razões são boas ou más. Elas sempre promovem violência, crueldade e vingança. As marcas que a guerra deixa são as da brutalidade humana, da selvageria e do orgulho de exercer domínio sobre o outro.

Nos tempos atuais, as guerras se justificam pela necessidade de se ampliar mercados e estabelecer relações que viabilizem o modo de produção e de consumo a partir da mentalidade do capitalismo. Não se trata de um personalismo ou de poder totalitário de um líder, mas de garantias para que bens e produtos circulem conforme interesses das potências. No caso do conflito entre Ucrânia e Rússia, está em questão a produção e o consumo do gás natural. Atualmente, EUA e Rússia são os principais produtores desse commodity e a Europa seu principal mercado.

A guerra entre Ucrânia e Rússia não faz sentido para o mundo. Mas não se pode esquecer o complexo contexto histórico nas relações entre esses países. O conflito rompe acordos e tratados internacionais e pode ser identificada, pelas normas internacionais formalizadas pela ONU, como uma agressão por parte da Rússia a uma nação independente, uma violação ao princípio da autodeterminação dos povos. Entretanto, a interferência dos interesses ocidentais não pode ser esquecida, sob o risco de uma compreensão deturpada desse conflito.

Um século depois de vencer uma pandemia e 80 anos após encerrar a Segunda Guerra Mundial, a humanidade demonstra que não se aprendeu nada em termos de relações humanitárias. Para quem achava que sairíamos melhores da pandemia, o cenário de mais uma guerra global expõe a fragilidade das relações internacionais. O tabuleiro político e econômico do mundo continua colocando em risco a vida de pessoas em condições de vulnerabilidade e fazendo mais vítimas.

Há quem defenda que a guerra é uma necessidade. Clausewitz e Marx viram nela uma expressão sanguinária da racionalidade humana. Embora a guerra nunca aconteça como um fenômeno isolado do cenário político e econômico do mundo – ela é resultado de uma pluralidade de fatores –, é sempre consequência da insanidade humana. Exatamente porque requer derramamento de sangue.


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