quinta-feira, 15 de abril de 2010

Espiritualidade como experiência de Deus e de si mesmo / Spirituality as an experience of God and yourself / La espiritualidad como una experiencia

A espiritualidade como experiência de Deus e de si mesmo nasce de uma necessidade de se ordenar a própria vida. Essa espiritualidade, porém, não acontece repentinamente. Isso supõe uma conversão, que é antecedida por uma fase de preparação, um tempo para se dar conta da necessidade de uma mudança profunda e genuína, ao se compreender como alguém que se encontra distante de Deus.
Essa preparação implica parar a rotina frenética do cotidiano para que a gente se perceba como alguém amado por Deus. É uma experiência de desespero, que desperta a necessidade de sermos aceitos, acolhidos e perdoados por alguém que tanto nos ama, mesmo sem termos nada de amável em nós mesmos. Trata-se de um tempo de peregrinação em que se reconhece que tudo vem de Deus e que tudo volta para Deus.
A percepção de que todas as coisas estão orientadas para Deus é o princípio fundador dessa experiência de encontro, na qual eu me insiro e desperto para Deus como um fim último da minha existência. Essa é a experiência que nos dá a compreensão de que só há vida de fato em Deus.
Isso nos confere a capacidade de dar um salto das coisas visíveis para as invisíveis, do finito para o eterno. Isso nos chama ao sentido da existência e nos remete a um movimento e uma reordenação da vida a Deus. Quando a reflexão aponta para uma reorientação da vida, a gente se dá conta de que nós não somos resultado do acaso, mas criados para um propósito. A questão é: se sou criado para um propósito, como deve ser a minha vida? O propósito da minha vida se encontra em Deus e cabe a mim buscar uma vida que seja para a maior glória dele.
O homem é criado para um propósito divino e Deus coloca tudo a serviço desse mesmo homem a fim de que ele alcance o fim para o qual foi criado. A vida que resulta dessa compreensão deve ser marcada pela nossa capacidade de se servir das coisas criadas por Deus naquelas circunstâncias que nos ajudem a cumprir o propósito para o qual existimos. Nesse sentido, somos livres para fazer as melhores escolhas nessa direção. E é da minha inteira capacidade desejar aquilo que mais contribui para o cumprimento desse propósito divino.
A experiência de Deus nessa perspectiva é uma experiência de circularidade. Tem a ver com o movimento que expressa a origem do homem a partir de Deus, que o remete a um encontro com Deus como fim último de sua existência e promove um retorno a si mesmo como ser no mundo.
É daí que surge a necessidade da celebração exultante a esse Deus que me remete de volta a mim mesmo como expressão do seu amor. Surge também um sentimento de temor, uma reverência respeitosa que me leva a não esquecer o amor que Deus tem por mim. E é isso que ainda me impulsiona ao serviço em favor do outro e a Deus. Servir é amar sempre. É aceitar o fato de que Deus tem uma missão, uma tarefa, um ministério para cada um de nós.
Essa experiência de Deus e de si mesmo é na verdade a essência da espiritualidade cristã, que nada mais é do que a experiência de parecer-se mais com Cristo. Estamos falando, portanto, de uma experiência cristológica. Jesus Cristo foi o maior mestre de espiritualidade porque foi essa a sua experiência de vida e essa é a sua proposta de vida para todos os homens.
O que pode resultar de uma experiência assim? Uma abertura para o mundo criado por Deus. A nossa relação com o mundo e com as coisas criadas deve ser em função de uma ordem sustentável, que é o grande desafio da vida. Uma experiência assim dá luz a uma ética da sustentabilidade que considera, ao mesmo tempo, a grandeza do homem – criatura amada e responsável por cuidar de toda a criação – e sua miséria e fragilidade. Isso exige a passagem do homem ideal, autônomo, dotado de vontade e livre, para o homem concreto. É o fim da indiferença – a ataraxia estóica – e a afirmação de um sentimento vivo de se deixar mover por aquilo que toca o coração de Deus.
É preciso trilhar o caminho que me leve a isso, ao desapego e à espera paciente da manifestação da vontade de Deus em minha vida. É a experiência de se pôr a caminho, de se colocar como disponível para que se realize em mim o que Deus de fato tem me preparado.

Um comentário:

  1. Caro, Professor!

    Pesquisando sobre filosofia encontrei o seu blog, e não poderia deixar de fazer um comentário, O seu blog é muito interessante o seus textos são de muito bom gosto prova de sua inteligencia.

    Abraços de sua aluna
    Daiana Admiral
    Turma: 21032N

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