quinta-feira, 22 de abril de 2010

Pedofilia e religiosidade: reflexões sobre o abuso sexual de menores / Pedophilia and religiosity / la pedofilia y la religiosidad

Os escândalos provocados pelas denúncias de abuso sexual por parte de membros do clero é algo que choca a humanidade. Isso nos lembra que há muita gente indefesa, que vive oprimida por uma mentalidade que desconhece a dignidade do ser humano e que, ainda que a afirme, a vulgariza. Mas ela é apenas uma face – cruel, sem dúvida alguma – da dura face como são tratados os oprimidos e desvalidos da humanidade. O trabalho infantil, o tráfico de menores, a prostituição infantil, a falta de acesso à escolaridade, a desnutrição são as outras faces de uma mesma realidade.
O problema é que a pedofilia praticada por membros do clero é encoberta por uma moralidade que está baseada num equívoco: o engano da afirmação de uma moral que valoriza a submissão e constrói a ideia um sujeito dócil e servil. No fundo, esse é o ingrediente, por um lado, para a exploração e manipulação do outro por parte das estruturas de poder. Por outro, gera o sentimento de angústia e desespero por parte de quem sofre tal ação, indefesos que nos tornamos diante da banalização das relações.
A pedofilia, na verdade, não é um mal contemporâneo. Os antigos mestres gregos escolhiam seus discípulos pela sua formosura. Os exploradores colonialistas usavam suas mulatas e mucamas. Acredito até que eu não existiria, já que minha avó materna, descendente de indígenas do sul, foi seduzida na sua pré-adolescência por um imigrante italiano e se tornou mãe aos 13 anos de idade. Isso não quer dizer que antes não fosse um mal. Apenas não se avaliava as consequências de tal atitude na vida de uma criança que teve a sua infância roubada.
Elevada à categoria de crime, nos atinge a todos. Coloca em suspeição quem tem o dever de servir como guias para uma humanidade que anda errante, como ovelhas sem pastor. Expõe a nossa fragilidade, revela a facilidade com que podemos sofrer o engano e nos torna indefesos diante das estruturas de poder. Por isso que os casos de pedofilia praticados por religiosos devem ser tratados como crimes pela sociedade e não devem passar impunes. Não importa quem os pratique: sejam eles padres, bispos, monsenhores, monges, religiosos ou não.
O que precisa ficar claro é que a pedofilia não é uma questão relacionada com o fenômeno religioso. Não é o celibato que provoca isso (embora eu não seja um celibatário). Não é o homossexualismo que provoca isso (embora alguns casos de abuso envolvam pessoas do mesmo sexo). Ela tem a ver com a maneira como a sociedade entende a relação com o outro, fundada num sentimento hedonista extremado e individualista. Ela nos agride porque mexe com a maneira como estamos tratando a geração futura. Ela nos choca porque nos sentimos indefesos, incapazes de encontrar sentido para as nossas próprias fragilidades. Ou a gente muda a maneira como entendemos a nossa condição humana e nossas relações ou não há quem nos possa defender.

4 comentários:

  1. Caro Irenio,

    Obrigado por compartilhar conosco sua posição lúcida quanto a um assunto tão pertinente. Fui edificado por ele, e peço autorização para publicá-lo em meu blog.
    Abraço.

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  2. Realmente Irenio a tendência mais percebida no senso comum religioso tende a associar a questão do celibato com a causa que favorece a pedofilia no meio católico. Todavia casos incluindo pastores evangélicos (casados) também vem acontecendo embora sendo apresentados pela grande midia de maneira meio velada. Conta-se sobre um documento elaborado pela CNBB a respeito do Aborto, estive com uma amiga catolica e la pude ouvir uma especie de teoria da conspiração feita por grupos pro aborto, que estariam se valendo dos constantes ataques a igreja catolica para fortalecer seus posicionamentos diante de uma igreja ja sem voz e moral para lutar contra os que defendem tais praticas. Mas e claro tudo isso circunda o imaginario dos religiosos e da gente comum.Bom texto Irenio abs.

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  3. Olá, Hermes
    Tá permitido. Compartilhar ideias é sempre bom. Obrigado!

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  4. Essa foi enviada pelo Antonio Mesquita, por e-mail:
    Olá meu caro
    Irenio.
    Sua crítica leva ao uso da razão, do conhecimento que liberta, enquanto mostra a ignorância como armadilha perfeita, ferramenta usada por homens-diabos, que levam o semelhante ao limite da irracionalidade.
    Forte abrç,

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