sexta-feira, 28 de março de 2014

50 anos da ditadura militar: lembrar para não repetir / 50 years of the dictatorship / 50 años de la dictadura militar

Há 50 anos, em 31 de março de 1964, o Brasil experimentou um movimento histórico que consolidou o golpe que depôs o então presidente João Goulart e implantou a intervenção militar no governo federal. Durante 21 anos, a partir do golpe, o país viveu sob um governo com plenos poderes e práticas próprias de um regime ditatorial. Não há como negar, esse fato entrou para a nossa história como o período da ditadura militar marcado pela censura, pela cerceamento à liberdade de expressão, pela cassação de direitos políticos e pela repressão aos movimentos de reação.
O golpe militar foi resultado de uma compreensão equivocada, por parte das forças conservadoras que sempre atuaram no Brasil, a respeito da ação dos movimentos de esquerda que influenciavam o governo federal à época. Além disso, havia o temor, por parte do governo norte-americano, de um avanço do comunismo na América Latina, que marcou todo o período da guerra fria. A elite conservadora e o patrocínio dos EUA possibilitaram o golpe.
Durante o período da ditadura, aconteceram ações de repressão por parte do Estado, com práticas arbitrárias de prisão, tortura e extermínio daqueles que se manifestavam contrários aos rumos políticos. Ao mesmo tempo, o regime ditatorial procurou imprimir um progresso tecnológico e econômico à custa de arrocho salarial e aumento da desigualdade social, bem como o aumento do endividamento externo e da inflação.
Através do uso dos meios de comunicação e a propaganda ideológica a favor do liberalismo econômico e do anticomunismo – práticas discursivas que perduram até hoje – as forças conservadoras permitiram que o país vivesse um regime de exceção que cometeu diversas arbitrariedades em nome da democracia que só agora são esclarecidas pela Comissão da Verdade.
O Brasil, desde a implantação da República em 1889, ainda não viveu um tempo de democracia plena, uma vez que os sistemas políticos sempre estiveram voltados para a satisfação dos interesses das elites conservadoras. E mesmo hoje não a experimentamos. É possível dizer que estamos aprendendo lentamente o gosto pela democracia e pela liberdade de expressão. As grandes reformas políticas que precisam ser implementadas ainda são esperadas.
O fim da ditadura militar não significou o fim da opressão e da desigualdade. Ainda soa como ameaça a frase do discurso de Jarbas Passarinho, que chegou a ser ministro da educação, no congresso: “Às favas todos os escrúpulos de consciência”. O processo de abertura ampla geral e irrestrita ainda não se deu de forma plena. Há no ar uma constante suspeita de intervenção nas instituições com fins moralizadores por parte do conservadorismo reinante.
Relembrar esses episódios tristes de nossa história nos ajuda a buscar uma atitude mais consciente em relação à nossa participação política de tal maneira que essa tendência golpista não consiga prosperar. Para mim, espiritualidade é também estar comprometido com uma ação coerente em favor de ações concretas pelas mudanças políticas. A democracia não é um sistema perfeito, exatamente porque depende da justiça, da liberdade e do fim da desigualdade. Não há como haver democracia enquanto houver estruturas que promovem injustiça, opressão e exploração do outro.
Em relação aos 50 anos da ditadura, não há o que comemorar, mas há que se lembrar dela a fim de que não se repita.

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