segunda-feira, 9 de março de 2009

Excomunhão, aborto e violência / Excommunication, abortion and violence / Excomunión, el aborto y la violencia

O recente caso envolvendo aborto que tomou conta da mídia apontam vários caminhos para a discussão a respeito da maneira como construímos a nossa relação com a realidade. O fato, porém, ficou polarizado em suas duas extremidades: de um lado, um crime hediondo em que uma menina de nove anos é abusada sexualmente pelo seu padrasto; de outro, a decisão do bispo católico em excomungar todos os envolvidos no aborto dos fetos gêmeos resultantes do abuso sexual.
À primeira vista, temos um quadro que representa o drama humano. Logo de início, somos lembrados que convivemos com pessoas que desenvolvem comportamentos que nos agridem. A pedofilia é um desses comportamentos inaceitáveis porque nos chamam a atenção para o quanto somos vulneráveis, somos violentados como pessoas, e isso nos remete à nossa fragilidade, indefesos que somos diante da opressão dos mais fortes.
Mas somos lembrados também que vivemos em uma sociedade de regras e normas, orientados por autoridades que são regidas por uma lógica linear, que determina que suas decisões sejam cumpridas como resultantes de uma relação hierárquica, sem direito de questionar. A excomunhão é a expressão de um poder que vai além do humano, que arvora o direito de abrir e fechar as portas que nos apontam para aquilo que pode nos tornar livres e nos trazer de volta para o que fomos criados para ser.
Mas o problema é muito maior do que esse. O caso da pedofilia nos lembra também que há milhões de outros meninos e meninas que vivem oprimidos por pessoas que não reconhecem a dignidade humana na vida de uma criança. São oprimidos porque estão relegados ao trabalho infantil, ao mundo do tráfico, à prostituição, à privação ao seu direito mais emergente: o direito de existir.
O caso da excomunhão nos lembra ainda que há uma sociedade construída sobre um equívoco, que constrói uma idéia de mundo em duas esferas, a do sagrado e a do profano. Só que a dimensão do sagrado mudou de ares, não está mais sob o domínio de uma instituição ou de uma formulação teológica. O sagrado tem mais a ver com aquilo que nos estimula a seguir adiante na construção de um mundo mais justo. A humanidade aprendeu a não mais dar ouvidos a uma orientação que a distancie de seus anseios. Mas que ainda se recente de uma voz que lhe aponte o caminho, por isso que essa excomunhão lhe soa tão estranha.
O crime da pedofilia é hediondo. A excomunhão motivada por um aborto praticado dentro das normas jurídicas do país é um equívoco. Mas, e daí? Continuamos indefesos, vendo nossas crianças e os desvalidos sem quem lhes garanta a dignidade, continuamos desorientados sem uma voz que nos guie no caminho que precisamos trilhar para reencontrarmos a nós mesmos.
Diante disso, posso imaginar Jesus Cristo ainda numa esquina qualquer da cidade olhando as pessoas passarem de um lado para o outro. De vez em quando se deparam com a triste notícia, resmungam alguma coisa e continuam em sua caminhada. Diz a Bíblia que Jesus, “ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor.” Mateus 9.36.

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