quarta-feira, 27 de julho de 2016

Trégua Olímpica: um tempo de tolerância, solidariedade e paz / Olympic Truce: a time of tolerance, solidarity and peace / Tregua Olímpica: un tiempo de tolerancia, de solidaridad y de paz

Os jogos olímpicos, em sua versão primeira, foram criados para se promover a paz. Já naquela época se entendia que o esporte inspira ações de tolerância, solidariedade, de inclusão social, de educação e de pacificação, tendo em vista a construção de uma sociedade mais justa. Isso vale para hoje também. Nelson Mandela chegou a dizer que “o esporte fala às pessoas em uma linguagem que elas podem entender”. E as Olimpíadas se constituem como o ponto máximo de realização desses ideais humanos.
A Grécia antiga, por volta do século VIII a.C., vivia em meio às guerras entre suas cidades e para se proteger dos impertinentes invasores. Os gregos, então, propuseram um período de trégua, ao qual chamaram de Ekecheiria, que significa “dar as mãos”. Durante esse período, atletas, artistas e peregrinos, bem como seus familiares, poderiam viajar em segurança para Olímpia, o local dos jogos olímpicos, e retornar do mesmo modo para suas cidades. Esse tempo equivalia a sete dias antes dos jogos e a sete dias depois dos jogos, chamado de trégua olímpica ou paz olímpica. A cidade onde os jogos eram realizados era considerada como território neutro, ainda que as cidades participantes estivessem em guerra. Ali, inclusive, líderes militares poderiam fazer seus acordos de paz.
Na reedição dos jogos olímpicos na contemporaneidade, a tradição de se buscar um período de trégua durante o torneio vem sendo mantida. Mas, somente em 1991, por causa dos conflitos na extinta Iugoslávia, o Comitê Olímpico internacional começou a mobilizar meios para a adoção da trégua olímpica como um tema de interesse internacional. Desse modo, em 1992, a ONU convocou a todos os países signatários a observarem um período de trégua durante os jogos já a partir da Olimpíada de Barcelona, naquele ano. Em 1993, então, são instituídos os 100 Dias de Paz para todos os jogos olímpicos e paralímpicos de verão e inverno.
Em face dos muitos conflitos que o mundo enfrenta, Ban Ki-Moon, o Secretário-Geral da ONU, pediu um cessar das hostilidades no mundo todo, ao aproximar-se a edição deste ano dos jogos na cidade do Rio de Janeiro. “Uma pausa nas lutas manifestaria os valores que os Jogos buscam promover: respeito, amizade, solidariedade e igualdade”, disse.
Embora o esporte seja um fator importante para a promoção da tolerância, da solidariedade e da paz, nem sempre os jogos olímpicos conseguiram promover uma trégua. Durante as realizações nos tempos modernos, duas guerras mundiais aconteceram de modo a cancelar algumas edições. Até mesmo durante a chamada guerra fria, aconteceram boicotes, proibições e até atentados, como foi o caso dos jogos de Munique, em 1972, quando onze atletas de Israel foram mortos pelo grupo terrorista palestino Setembro Negro. A única edição que recebeu 100% de adesão dos países-membros da ONU foi a de Londres, em 2012.
De acordo com a decisão aprovada em outubro de 2015 na ONU, 180 dos 193 países-membros concordaram em observar uma paralisação dos conflitos durante os jogos do Rio 2016, a começar, portanto, nesta sexta-feira, 29 de julho. O documento que trata da trégua olímpica neste ano recebe o título de “Esporte para o desenvolvimento e a paz: construindo um mundo mais pacífico e melhor por meio do esporte e do ideal olímpico”. Nele, foram incluídas preocupações com a proteção e a educação de meninos e meninas em todo o mundo.
Para um tempo marcado pela crise dos refugiados e pelos ataques terroristas, a expectativa de que a trégua olímpica se torne realidade já é um alento. Isso deve valer também para que se observe um cessar na intolerância, no preconceito e nas hostilidades entre as pessoas, não só entre nações. Isso deve valer mais ainda para os conflitos internos no nosso país: guerras de quadrilha pelo controle do tráfico, agressões e ofensas por causa de intolerância religiosa e ideológica bem como a tramitação do golpe de estado em curso no país com aparência de legalidade, que é o impeachment atual.
Um evento dessa magnitude, que acontece pela primeira vez num país latino-americano, certamente comporta críticas de várias naturezas. Mas não podemos perder a chance histórica de cuidar das relações uns com os outros, de lembrarmos que somos todos humanos, de que ainda é possível sonhar com um tempo de paz para a nossa cidade, para o nosso país e para o mundo em que vivemos.

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