segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Quem é feliz? / Who is happy? / ¿Quien esta feliz?

Há duas palavras em grego para descrever a felicidade. A primeira delas é eudaimonia. Ela foi usada por Aristóteles para se referir à condição a ser alcançada a partir do cultivo de virtudes. Pode ser traduzida como realização pessoal ou como a definição de um estado para se viver a vida boa, quer seja relacionada a aspectos morais, quer seja materiais. Havia até uma compreensão de que, para ser feliz, era preciso ter uma origem boa. O belo, o forte e o rico seriam pessoas naturalmente felizes. Entretanto, para os que não eram dotados dessas qualidades precisavam de uma forma mais inteligente de viver.

Para Epicteto, a busca da felicidade dependia da saúde física e da tranquilidade da alma. Isso implicava o controle dos desejos e o cultivo dos hábitos essenciais ao bem-estar. Para tanto, seria necessário desenvolver a sabedoria para se viver de forma feliz com o mínimo necessário. A raiz é daimon, que está relacionada a divindades mitológicas, responsáveis por nossos temperamentos, nossas escolhas e até nosso destino. Na verdade, é a voz da nossa própria consciência que está em permanente conflito com o nosso inconsciente.

A segunda palavra é makarios, que difere da primeira e pode ter o sentido de afortunado, sortudo ou mesmo bem-aventurado. O radical makar lembra uma pessoa que é abençoada. O grego clássico usava a expressão makarites para se referir a alguém que recebeu a bênção dos deuses e, por isso, foi livrado do mal. Aristóteles usou essa palavra para se referir a ideais mais elevados que o homem tem em si mesmo que o conduz aos atos nobres. Trata-se de uma felicidade que resulta da vida contemplativa. No Egito essa palavra era usada como uma saudação. No Novo Testamento, porém, Jesus a usou para descrever as bem-aventuranças.

André Chouraqui, em sua tradução do evangelho de Mateus, afirma que, de um modo geral, é um erro traduzirmos a expressão makarioi somente pelo seu sentido grego, que seria o de felicidade. Ele entende que Jesus pronunciou essa palavra com o mesmo sentido de ashrei, termo hebraico encontrado em alguns salmos, como 1 e o 119, que quer dizer marchar, andar, seguir em frente, conduzir por uma linha reta. A noção de felicidade, então, não estaria na formação da frase, mas em seu significado, que aponta para a dinâmica da salvação “introduzida na vida do homem em marcha em direção ao Reino”, disse Chouraqui. A felicidade, nesse sentido, estaria na própria alegria de quem acolhe o convite amoroso de tomar parte do Reino de Deus.

Jesus usou a palavra makarioi de diversas formas, não só para se referir às bem-aventuranças. A felicidade em Jesus está intimamente relacionada com a salvação. Ele declarou que veio buscar e salvar o que se perdeu, que é todo aquele que perdeu o sentido da vida, que se perdeu de si mesmo. Jesus afirmou: “[...] ‘Antes, felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e lhe obedecem’” (Lucas 11.28). A busca da felicidade depende de um certo exercício de escuta da palavra que gera vida, que aponta caminhos, que confere força e coragem para quem perdeu o ânimo de viver.

As duas formas linguísticas gregas de se referir a quem é feliz podem ser compreendidas como sendo as duas faces da felicidade: de um lado, a felicidade possui em si um aspecto moral que nos remete a uma relação com o outro; mas, de outro, a felicidade implica também o exercício de uma vida contemplativa, em que estão presentes valores que transcendem as nossas ações. Pode-se afirmar que a felicidade tanto tem a ver com a maneira como nos relacionamos como também com o que estamos fazendo com a vida que temos. São formas de felicidade qualitativamente diferentes, mas que se complementam. Não dá para ser feliz sem desenvolver virtudes em nossas relações e sem, ao mesmo tempo, cuidar das condições concretas de existência no mundo.

A cultura contemporânea reduziu a felicidade ao prazer e o prazer ao gozo do momento. Felicidade, prazer e gozo são sensações distintas, mas para o senso comum acabaram se tornando expressões sinônimas de uma falta, a ausência de sentido para a própria vida. Aprendemos a aplacar a dor com um analgésico. Da mesma forma, é mais fácil substituir a falta de realização pessoal pelo consumo, a alegria de viver pelo efeito de um entorpecente, a angústia por um ansiolítico, o sofrimento pela alienação.

Então, quem é feliz? Essa pergunta nos remete ao cuidado com a vida. É feliz quem consegue desenvolver uma atitude de contentamento com a vida de tal modo que possa agir de maneira responsável para o bem comum e das gerações futuras. Quem é feliz encontrou uma certa alegria de viver, que faz da vida em todas as suas expressões um constante objeto de cuidado. Não se trata de um prazer de momento, mas da busca de uma forma de vida que seja boa para todos e todas: o prazer de viver. Felicidade é ter prazer de viver e de lutar para que todos e todas desfrutem da vida.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Uma casa para todos / A home for all / Un hogar para todos

Os povos originários do Brasil dão à casa um sentido mais abrangente do que estamos acostumados. A oca, como a casa é chamada na língua tupi-guarani, é uma construção em grande dimensão, podendo chegar a 40m de comprimento, feita de forma comunitária usando troncos e taquaras amarradas com cipós e cobertas com palhas retiradas da natureza no entorno. Nela não há divisão interna e ela serve como habitação para todas as famílias da aldeia.

Essa experiência dos povos originários, que se apresenta em diferentes modalidades, ressalta a importância da casa como lugar de acolhimento. Parte do dia, os moradores realizam suas atividades fora da oca, recolhendo-se no interior da mesma para o descanso, a alimentação e o cuidado uns com os outros. No interior das casas, cada família convive com as demais de forma harmoniosa e colaborativa. Esse sentido da casa comum serve como inspiração para repensarmos a maneira como vivemos no planeta.

O papa Francisco tem feito constantes apelos ao cuidado do planeta como nossa a casa comum. Já na encíclica Laudato Si, ele lançou o desafio de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral para o bem da vida no planeta. “A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum” (FRANCISCO. 2015, § 13). Deixar de cuidar dela é um pecado grave que põe em risco toda forma de vida. Portanto, é preciso cuidar-se, cuidar uns dos outros e deixar-se ser cuidado.

De que forma podemos cometer um pecado grave em relação à nossa casa comum? Tornando-se indiferente aos mais vulneráveis, explorando a natureza indiscriminadamente e desenvolvendo uma mentalidade gananciosa e acumuladora. Precisamos aprender de forma solidária, participativa e preocupada com a sustentabilidade. A isso poderíamos chamar de a grande revolução do cuidado.

Há um ditado popular espanhol que diz: “Deus perdoa sempre; nós perdoamos às vezes; a natureza não perdoa nunca”. Estamos vivendo um momento único na história da humanidade em que temos a chance de lutar para reverter o avanço da crise ambiental, agindo pelo cuidado da casa comum. É urgente que cada um assuma a responsabilidade de tomar a iniciativa para fazer algo em favor da criação e da preservação de todas as formas de vida existentes no planeta. O nosso grande alvo deve ser o de, juntos, desenvolvermos as condições  para um planeta sustentável e acolhedor para todas as criaturas.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Novo Normal: como viver como um cristão na pós-pandemia / New Normal: How to Live Like a Christian in Post Pandemic / Nueva normalidad: cómo vivir como un cristiano en la pospandémica

O conceito de “Novo Normal” está muito presente no debate a respeito do que acontecerá no mundo após o fim da pandemia de Covid-19. A ideia de normalidade está envolvida com conceitos a respeito daquilo que é comum, mas acima de tudo àquilo que está presente em uma certa regularidade. O normal seria aquilo que é esperado dentro de um ambiente conhecido e a partir de determinadas expectativas. Entretanto, essa pandemia deixou claro que a vida é orientada por imprevisibilidades, pelo imponderável e por incertezas.

O sociólogo português Boaventura de Souza Santos escreveu um livro sobre a cruel pedagogia do novo Coronavírus, pois confronta a fragilidade das ações humanas em meio ao que se convencionou chamar de normalidade. Isso nos ajuda a entender que a normalidade da vida humana é marcada pelo que é excepcional, pela flexibilidade das possibilidades, pelas nossas vulnerabilidades e pela pluralidade das formas de existência.

A espécie humana, que alcançou uma capacidade tecnológica fantástica com as conquistas da ciência, se viu ameaçada por um vírus invisível. A vida social foi afetada em todos os níveis. A humanidade deve que parar literalmente. O impacto disso se notou até mesmo nos controles dos fenômenos sísmicos. Cidades inteiras ficaram com suas ruas vazias, o comércio fechado e escolas com aulas presenciais suspensas. O mercado produtivo teve que encontrar meios de realizar o trabalho remoto provocando grandes mudanças no cenário econômico.

A pandemia atingiu também a igreja de modo muito direto. Religiosos foram afetados por colocarem suas vidas em risco para cuidar de pessoas enfermas, mas também por duvidarem e negarem as informações científicas a respeito da contaminação e das medidas de prevenção. Igrejas tiveram que seguir os protocolos sanitários para suas reuniões públicas. A grande maioria fechou seus espaços de culto durante muito tempo para evitar aglomerações. Por conta disso, tiveram que encontrar outras formas de conectar pessoas através de meios digitais para continuar servindo na oração mútua, no aconselhamento, no estudo, na evangelização e até na adoração.

As famílias precisarem redescobrir o valor da convivência em uma mesma casa. A exigência de ficar em casa, a necessidade de se trabalhar de home office e até o estudo remoto despertou a necessidade de se ressignificar os espaços dentro do lar. O lazer, o entretenimento, o bate-papo e até as reuniões em família tiveram que acontecer em outras modalidades. De repente, todos em família precisarem aprender a respeitar e reconhecer o papel do outro e a usar as novas tecnologias para construir relacionamentos.

A volta ao que tínhamos como normalidade antes da pandemia não acontecerá de forma fácil. A retomada do emprego, a recuperação dos conteúdos escolares, a reorganização das atividades econômicas e até o retorno às atividades regulares da igreja não acontecerão de forma imediata. Será necessário nos perguntarmos que tipo de sociedade queremos ser após as perdas e os impactos causados pela pandemia. Não podemos esquecer que o mundo que tínhamos anteriormente não era perfeito, nem podemos deixar de levar em conta que famílias inteiras estão fragmentadas pelas perdas de seus entes queridos, que colegas de trabalho e de turma faleceram ou ficaram debilitados, que amigos se foram, que igrejas perderam seus membros e até seus pastores.

Outras grandes “pandemias” atingem o planeta. O aquecimento global ameaça a vida no planeta com a morte de indivíduos de todas as espécies, inclusive seres humanos. A desigualdade social atinge milhões de pessoas em todo o mundo que padecem por causa de problemas sanitários, atendimento em saúde e fome em função da má distribuição de renda e pela precariedade de políticas públicas para a erradicação da miséria. A migração de comunidades inteiras que fogem da guerra, da violência, da xenofobia, da seca, da fome e do desemprego tem levado a vida de muitos que perecem em naufrágios e jornadas arriscadas.

Vencer a pandemia da Covid-19 já se torna uma possibilidade em várias partes do mundo. O desafio será encontrar respostas para as muitas outras ameaças à vida. O que está presente nas discussões a respeito da vida na pós-pandemia é a necessidade que todos nós temos de segurança. Precisamos nos cercar de atitudes que restaurem o que há de mais humano em nós, que nos ajudem a viver de forma civilizada no mundo, que nos conduza à construção de novos valores ligados à solidariedade, à generosidade e à humildade.

Esse debate deve conduzir cristãos a uma reflexão mais profunda sobre sua experiência de fé. Que igreja teremos após a pandemia? Como será viver a fé cristã num mundo com tantas fragilidades? Quais os valores que deverão orientar a missão de cristãos e cristãs em suas comunidades? São questões que devem orientar novas condutas, novos modos de ver o mundo e até novas formas de construirmos nossas relações.

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Em defesa da família / In defense of the Family / En defensa de la familia

Quem de fato defende a família? O discurso em defesa da família é um dos modos que o conservadorismo encontrou de exercer domínio para dar continuidade à sua pauta moralista. Geralmente, a temática da defesa da família é usada para se combater a luta pelo fim da criminalização do aborto e os movimentos em favor dos direitos identitários, sobretudo em relação à desigualdade de gênero e às bandeiras do público LGBTQI+. Essa pauta conservadora geralmente está articulada com interesses de grupos religiosos fundamentalistas e de movimentos extremistas de direita. Como se esses foram os únicos problemas que a família enfrenta e que necessita de cuidado.

Isso desperta uma problematização: a família enfrenta problemas porque a humanidade passa por profundas transformações ou é a humanidade que enfrenta problemas porque a família passa por profundas transformações? Trata-se de um dilema, na medida em que as duas hipóteses podem ser consideradas válidas, sendo que a segunda é consequência da primeira num permanente ciclo de transformações. Melhor dizendo, a família, sem sombra de dúvidas, passa por situações de conflitos que nunca havia passado antes, decorrentes de grandes transformações sociais, econômicas e políticas pelas quais a humanidade vem passando. Entretanto, as formas de enfrentamento dos conflitos familiares e suas muitas mudanças de configuração têm provocado o aprofundamento da crise pela qual a humanidade passa.

A razão pela qual se constrói um discurso moralista que tenta apontar uma dissolução da família tem a ver com o quadro de desestruturação da sociedade atual, tal como se conhecia até algum tempo atrás. É como se as famílias não tivessem problemas em outras épocas. O nosso imaginário está permeado por um ideal de família estruturada em padrões burgueses que oferecem certa segurança e estabilidade emocional.

Na verdade, os que estão em busca dessa família idealizada são pessoas que têm históricos de relacionamentos familiares marcados por conflitos. São aqueles que tiveram experiências como mães solteiras, que são jovens divorciados, que enfrentaram o divórcio dos pais na infância ou adolescência e até quem sofreu discriminação em família por questões de gênero. Essas pessoas são tomadas por um profundo desejo de não repetir os erros passados, de agir de outro modo.

Para a psicanalista Maria Rita Kehl, no artigo “Em defesa da família tentacular”, reconhece que “a família nuclear ‘normal’, monogâmica, patriarcal e endogâmica, que predominou entre do início do século XIX a meados do XX no ocidente (tão pouco tempo? Pois é: tão pouco tempo) foi o grande laboratório das neuroses tal como a psicanálise, bem naquele período, veio a conhecer”.

Os censos demográficos atestam a cada década que a família não é mais a mesma. Novas formas de convívio vão sendo improvisadas, tendo em vista o cuidado com os filhos, a afirmação de relacionamentos afetivos e até a satisfação de necessidades de sobrevivência e de consumo vão sendo construídas à revelia desse discurso conservador e moralista. Ou seja, a defesa de um único modelo de família tradicional não impede que novas configurações surjam, e que algumas delas se perpetuem e outras sejam diluídas sem qualquer possibilidade de controle, seja de uma lei humana ou divina.

“O mal estar vem da dívida que nos cobramos ao comparar a família que conseguimos improvisar com a família que nos ofereceram nossos pais. Ou com a família que nossos avós ofereceram a seus filhos. Ou com o ideal de família que nossos avós herdaram das gerações anteriores, que não necessariamente o realizaram. Até onde teremos de recuar no tempo para encontrar a família ideal com a qual comparamos as nossas?”, diz Maria Rita Kehl.

Para Anthony Giddens, em O mundo em descontrole, destaca que há uma revolução global em curso que afeta o modo como construímos nossos relacionamentos, inclusive familiares, que vai avançando de forma desigual, de acordo com aspectos socioeconômicos e culturais, e com enfrentamentos de resistências. “Há talvez mais nostalgia em torno do santuário perdido da família do que em qualquer outra instituição com raízes no passado. Políticos e ativistas diagnosticam rotineiramente o colapso da família e clamam por um retorno à família tradicional” (p. 63).

A chamada família tradicional é uma unidade socioeconômica, caracterizada por padrões de consumo, concepção de sexualidade a partir da ideia de reprodução e uniões conjugais orientadas por interesses sociais, e não pelo amor romântico. Esse tem sido o padrão predominante nas sociedades industriais em todo o mundo. Porém, após as revoluções culturais do final do século XX, “só uma minoria vive hoje do que poderia ser chamado de família padrão” (p. 67).

Essas transformações demandam a necessidade do que Anthony Giddens chamou de democracia das emoções. “Defender a promoção de uma democracia emocional não significa ser fraco com relação aos deveres familiares, ou com relação à política pública voltada para a família. A democracia significa a aceitação de obrigações, bem como de direitos sancionados em lei” (p. 73). A sociedade contemporânea exige que haja espaço e respeito para todas as expressões humanas, tendo em vista a formação de um ambiente mais justo e humano.

Defender a família não pode ser um programa político ou mesmo uma plataforma orientada por interesses ideológicos. Defender a família implica cuidar dela, pois é nela que construímos a nossa existência. Curiosamente, aqueles que têm se apresentado como defensores mais exacerbados da família tradicional ou estão envolvidos em situações morais duvidosas, ou comprometidos com interesses espúrios ou até, em alguns casos, com experiências conjugais que não se enquadram com o modelo tradicional que defendem. O cuidado da família requer compromisso com a santidade.

O cuidado com a família passa por atitudes que estejam voltadas para o bem-estar da vida em família, pela superação do ódio provocado por preconceitos e pela promoção de uma cultura de paz, de não violência, de solidariedade e de convivência em comunidade. Essas atitudes representam novos desafios para a vida em família. Isso lembra a recomendação bíblica: “Se alguém não cuida de seus parentes, e especialmente dos de sua própria família, negou a fé e é pior que um descrente” (1 Timóteo 5.8).

Referências:

GIDDENS, Anthony. O mundo em descontrole. Rio de Janeiro: Record, 2007. p. 61-75.

KEHL, Maria Rita. Em defesa da família tentacular. In: Fronteiras do Pensamento. 2013. Disponível em: https://www.fronteiras.com/artigos/maria-rita-kehl-em-defesa-da-familia-tentacular>

terça-feira, 27 de abril de 2021

Missão Integral e compromisso com o mundo: a morte de René Padilla abre uma lacuna na Teologia Latino-Americana / Integral Mission and commitment to the world: the death of René Padilla opens a gap in Latin American Theology / Misión integral y compromiso con el mundo: la muerte de René Padilla abre una brecha en la teología latinoamericana

A primeira vez que li um texto de René Padilla estava cursando Teologia no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, lá pelos anos de 1980. Eu era muito jovem, tomado pelo arroubo do pensamento crítico, ávido de conhecimento para desbravar o campo da Teologia e da Filosofia.

Era um tempo de grandes transformações, ainda em meio aos anos de regime de exceção que tomou conta do Brasil. Ler Padilla e sua Missão Integral era um bálsamo para os meus ideais e um estímulo para a construção de minha consciência em relação à missão e ao ministério pastoral. Era uma de minhas leituras subversivas, aquelas que não eram recomendadas por professores e nem faziam parte do currículo. Junto com Padilla, se somaram Leonardo Boff, Hans Küng, Paul Tillich e tantos outros que fizeram minha cabeça. Lia por fome, por diletantismo, por vontade, por curiosidade.

Conheci René Padilla pessoalmente apenas em 2015 quando fui à consulta FTL setor Brasil em São Paulo. Estavam ali os três principais fundadores da teologia da missão integral na América Latina ainda vivos à época: Samuel Escobar, Pedro Arana e o próprio René. Foi um encontro inesquecível, em que pude conversar com ele, abraçá-lo e agradecer pela influência que exerceu na minha vida.

Equatoriano, nascido em 12 de outubro de 1932, ele foi criado na Colômbia, educado nos Estados Unidos e serviu como pastor na Argentina. Participou da famosa Conferência de Lausanne em 1974, exercendo grande influência na elaboração do documento sobre o compromisso social da igreja. Alguns o consideravam como um “evangelicalista”, mas logo se distanciou desse movimento, identificando-se com a realidade latino-americana, comprometido com um cristianismo evangélico voltado par o diálogo, para o atendimento dos mais vulneráveis, para o cumprimento da missio Dei e para realização do Reino de Deus no mundo.

Na tarde de hoje, René Padilla faleceu. Depois de um tempo enfermo, não resistiu. Deixa-nos aos 88 anos. Uma lacuna se abre na teologia latino-americana, sobretudo no âmbito do movimento evangélico. Nesses tempos em que o fundamentalismo parece hegemônico, a voz de alguém como Padilla vai fazer muita falta.

Atualmente, recai sobre meus ombros a tarefa de coordenar no Brasil e instituição que Padilla ajudou a fundar, a Fraternidade Teológica Latino-Americana, a FTL, juntamente com o Rogério Donizete. Com essa notícia, sinto-me pequeno diante desse imenso desafio. Padilla sonhava com um espaço em que todos e todas tivessem voz, em que fosse possível construir um pensamento a partir da realidade latino-americana que dialogasse com o mundo.

Bem, o desafio está posto. Padilla descansou. A vida continua.

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