quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Ética e Discurso / Ethics and discourse

Um novo caminho dentro da perspectiva da ética racional é o de Jürgen Habermas. Embora o direito de existir seja negado por Nietzsche, Habermas vai defender a possibilidade de uma ética fundamentada racionalmente. Entretanto, sua posição difere substancialmente da dos outros teóricos racionalistas éticos.
O projeto de Habermas é desenvolver uma concepção não-metafísica tanto da razão quanto da subjetividade. Para ele, a ética racionalista moderna não se adapta mais à complexidade das relações entre os homens nos dias de hoje, posto que seu fundamento é baseado em uma razão monológica, desengajada. Como contraponto, apresenta a ética do discurso, cujo fundamento é uma razão dialógica, pautada na ação comunicativa, onde as interações entre os homens se dão na comunicação quotidiana, mediatizada pela linguagem.
A ação comunicativa se baseia na idéia de um processo de socialização lingüisticamente mediado, através do qual falantes e ouvintes interagem na busca do estabelecimento de um consenso tácito entre eles. Quando as interações comunicativas acontecem no plano das ações comunicativas normais, cotidianas, são denominadas fala. No nível da fala, espera-se que todas as pessoas envolvidas possam proferir sentenças que sejam inteligíveis (pretensão de inteligibilidade) do ponto de vista gramatical e lingüístico; espera-se também que seu conteúdo proposicional seja verdadeiro (pretensão de verdade); que, ao emiti-lo, o falante seja sincero ou veraz (pretensão de veracidade) e que a sentença seja correta ou adequada (pretensão de justiça) em relação às normas e valores vigentes aceitas por todos os ouvintes.
Habermas, no livro Consciência moral e agir comunicativo, pressupõe, ainda, que todos os falantes, potencialmente, possuam a capacidade de entrar no processo comunicativo, isto é, a competência tanto lingüística quanto cognitiva e interativa para participar dos atos de falas, em menor ou maior grau. E isso é universal. Ou seja, no plano das interações lingüísticas normais, as sentenças proferidas não são contestadas quanto às suas pretensões de validade. Assim, o consenso tácito pode ser estabelecido sem que seja necessário submetê-las a uma avaliação crítica. Quando, ao contrário, pelo menos uma das quatro pretensões de validade são desafiadas, falantes e ouvintes passam do plano das interações lingüísticas normais – fala – para um outro plano comunicacional, através do qual as sentenças proferidas são questionadas – o discurso. Assim, o consenso verdadeiro só pode ser estabelecido através de um processo argumentativo, em que falantes e ouvintes são convidados a justificar suas sentenças. Para Habermas existem dois tipos de discurso: o teórico e o prático. No discurso teórico, o que entra em questionamento é a verdade dos fatos, ao passo que no discurso prático é a verdade das normas que se encontra desafiada.
No plano comunicacional do discurso, o estabelecimento do consenso verdadeiro deve ser precedido de uma série de condições. Entre elas duas são as mais importantes: a garantia de que o processo argumentativo aconteça sem qualquer tipo de coação, seja externa (através da violência), seja interna (falsa consciência) e a garantia de que tanto os argumentos como os contra-argumentos sejam amplamente discutidos a fim de que não haja manipulação por parte dos falantes. Tanto na fala quanto no discurso, a relação interativa que se estabelece, na busca do consenso possível (cuja função é coordenar as ações dos diferentes sujeitos), se desenvolve no âmbito do mundo vivido.
Isso significa que a ética discursiva, pautada na ação comunicativa entre os sujeitos, é aquela que remete tanto à objetividade do mundo das coisas quanto à subjetividade do mundo das paixões, dos desejos, das emoções. Ao entrarem em interação, através dos atos de fala, os homens emitem enunciados que remetem a uma tripla conexão, na qual se entrelaçam o mundo objetivo das entidades reais, o mundo social das normas e o mundo subjetivo das experiências individuais. As próprias ações concretas levam o sujeito a posicionar-se em face destes três mundos. Para Habermas, a vida ética fica imersa nesta configuração de mundos humanos, possuindo conteúdos não apenas cognitivos, mas também valorativos e expressivos.

2 comentários:

  1. |Olha, gostei muito do texto e fiquei curioso
    gostaria de saber mais a respeito da ética do discurso de habermas e da influencia da pragmática d eAustin na ética do discurso de habermas.
    Podem me indicar livros sobre esse assunto?
    Agradeço.
    O que significa pragmática?
    O que significa metafisica/
    o que signifca trancendental ou melhor, argumetno pragmatico transcendental/
    O q Habermas chama de discurso pratico?
    o que ele chama de discurso teórico?
    Grato .
    grande abraço
    José

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  2. meu email é: ufsmjose@bol.com.br Se alguem tiver a fim de trocar uma ideia e me ajudar, fique a disposição
    Jose

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